Durante décadas, as mortes precoces no fisiculturismo circularam como uma sequência de nomes, homenagens e suspeitas. Faltava um levantamento capaz de mostrar se os casos formavam um padrão. Quando mais de 20 mil competidores foram acompanhados, a impressão ganhou números: 121 morreram, a idade média dos óbitos ficou em 45 anos e a morte cardíaca súbita apareceu como a causa mais frequente.
Em “It's Not Just the Steroids Killing Bodybuilders”, o canal bodybuildbeast parte desse levantamento para defender uma tese desconfortável. Os esteroides fazem parte do risco, mas não explicam tudo sozinhos. Coração remodelado, predisposição genética, desidratação, diuréticos, outras drogas, sofrimento psíquico e um sistema que recompensa físicos cada vez mais extremos podem agir ao mesmo tempo.
O estudo que transformou suspeitas em números
Publicado no European Heart Journal em 2025, o estudo “Mortality in male bodybuilding athletes” identificou 20.286 homens que participaram de 730 eventos da International Federation of Bodybuilding and Fitness, a IFBB, entre 2005 e 2020. O acompanhamento médio foi de 8,1 anos, somando 190.211 atleta-anos de observação até julho de 2023.
Foram identificadas 121 mortes, com idade média de 45,3 anos. Entre elas, 73 foram classificadas como súbitas e 46 como mortes cardíacas súbitas. Isso representa cerca de 38% de todos os óbitos encontrados.
Onze mortes cardíacas súbitas ocorreram entre atletas ainda em atividade competitiva. A idade média desse grupo era de 34,7 anos e a incidência calculada chegou a 32,83 casos por 100 mil atleta-anos. Entre profissionais, o risco foi 5,23 vezes o observado entre amadores.
No subgrupo mais extremo, formado por competidores do Mr. Olympia, 7% morreram durante o período analisado e 5% tiveram morte cardíaca súbita. O número chama atenção, mas não deve ser projetado sobre todas as pessoas que praticam musculação. Trata-se da elite de um esporte que premia volume muscular e definição em níveis muito distantes do treino recreativo.
O que o levantamento prova e o que permanece incerto
O trabalho documenta um sinal de risco relevante, especialmente entre atletas profissionais. Ele não demonstra que todos os óbitos foram causados por anabolizantes. A identificação das mortes foi retrospectiva e usou buscas padronizadas na internet, notícias, redes sociais e registros disponíveis publicamente.
Uma causa específica foi encontrada em 78,5% dos casos. Autópsias estavam disponíveis para apenas cinco profissionais que sofreram morte cardíaca súbita. Para grande parte da amostra, faltavam histórico familiar, exames anteriores, substâncias usadas, doses, duração do uso e detalhes completos das circunstâncias da morte.
Essas limitações não apagam o alerta. Elas mudam a leitura correta: existe uma concentração preocupante de mortes cardíacas precoces, mas a contribuição de cada fator não pode ser reconstruída com precisão para todos os atletas.
Os esteroides continuam no centro do risco cardiovascular
Dizer que não são a única causa não inocenta os esteroides anabolizantes. Uso prolongado e em doses suprafisiológicas está associado a pressão arterial elevada, piora do perfil lipídico, aumento do hematócrito, hipertrofia do coração, fibrose, redução da função ventricular e aterosclerose coronariana.
Em uma coorte de levantadores de peso experientes, 86 usuários de anabolizantes apresentaram fração de ejeção média de 52%, contra 63% em 54 não usuários. A carga de placas nas artérias coronárias também foi maior, e o tempo acumulado de exposição se associou a mais aterosclerose.
Uma meta-análise de 2025 reuniu 35 estudos e 2 mil homens. Em comparação com atletas de força que não usavam anabolizantes, os usuários apresentaram paredes do ventrículo esquerdo mais espessas, maior massa ventricular e indicadores piores de função cardíaca. As médias não determinam o destino individual, mas descrevem um padrão compatível com remodelamento cardíaco adverso.
Cinco autópsias mostram o sinal, não toda a história
Nas cinco autópsias disponíveis no estudo de mortalidade, quatro atletas apresentavam hipertrofia ventricular esquerda e cardiomegalia. Dois também tinham doença arterial coronariana. Três das cinco análises toxicológicas detectaram uso de esteroides anabolizantes.
Outro estudo de autópsias citado pelos pesquisadores encontrou corações, em média, 73,7% mais pesados que os valores de referência e parede ventricular esquerda 125% mais espessa que o previsto. Treino intenso pode produzir uma adaptação cardíaca moderada. Hipertrofia concêntrica severa, fibrose, necrose e perda de função fogem do padrão esperado de um coração atlético saudável.
Dallas McCarver e Rich Piana: anatomia semelhante, certezas diferentes
Dallas McCarver morreu aos 26 anos. A autópsia descrita apontou hipertrofia grave do ventrículo esquerdo e doença coronariana. Seu coração pesava 833 g, quase três vezes os cerca de 300 g usados como referência para um homem saudável de porte comum. O histórico familiar de doença cardíaca acrescentava uma vulnerabilidade que não pode ser separada das demais exposições.
Rich Piana morreu aos 46 anos poucos dias depois. Coração e fígado estavam muito aumentados e havia doença cardiovascular significativa. Mesmo assim, a causa oficial foi registrada como indeterminada. A diferença entre os dois casos é importante: alterações anatômicas graves sustentam preocupação, mas não autorizam preencher lacunas do laudo com uma causa única.
Boston Loyd: quando genética e experimentação se encontram
Boston Loyd morreu aos 29 anos por dissecção de aorta, uma ruptura na principal artéria que sai do coração. Seu pai, também fisiculturista, já havia tratado cirurgicamente um aneurisma na mesma região e o alertara para investigar a predisposição familiar.
Ao mesmo tempo, Loyd relatava combinações extensas de fármacos e já havia sofrido insuficiência renal. Ele próprio associava o dano renal a um peptídeo experimental sem estudos em humanos. O relato incluía um frasco de 5 mg por dia, aplicado perto da região dos rins e em outras áreas na tentativa de destruir células de gordura.
Esse número não é protocolo. Ele documenta o nível de experimentação envolvido. Dissecções de aorta podem resultar da interação entre fragilidade da parede arterial, hipertensão, elevação abrupta da pressão durante esforço pesado e uso de substâncias. Separar uma causa isolada depois do evento pode ser impossível.
A semana final pode ser mais perigosa que o auge do volume muscular
Fisiculturistas manipulam carboidratos, água e sódio antes da competição para aumentar o volume muscular aparente e reduzir água subcutânea. Alguns acrescentam diuréticos. A literatura descreve essas estratégias, mas encontra pouca evidência para sustentar muitos protocolos extremos.
Reduzir água e eletrólitos de forma agressiva pode alterar sódio e potássio, prejudicar os rins e desorganizar o ritmo cardíaco. Um caso publicado descreveu hipocalemia grave de 1,8 mmol/L, paralisia e alteração importante do eletrocardiograma após automedicação com diuréticos e restrição de líquidos.
A vulnerabilidade aumenta quando desidratação, percentual de gordura muito baixo, restrição calórica, estimulantes, hormônios e esforço intenso se acumulam. Cinco atletas da coorte morreram por causa cardíaca durante ou logo após um evento oficial.
Exame normal não é garantia de risco zero
Hemograma, perfil lipídico, enzimas hepáticas e função renal são importantes, mas não enxergam sozinhos fibrose, alterações estruturais, placas coronarianas ou todas as arritmias. Um resultado laboratorial dentro da referência não transforma um protocolo extremo em seguro.
O estudo propõe avaliação específica para o fisiculturismo. Eletrocardiograma, teste de esforço e ecocardiograma podem ajudar a identificar hipertrofia excessiva, cardiomegalia e arritmias. A tomografia coronariana e a ressonância cardíaca podem ser consideradas quando houver indicação clínica. Ainda não existe evidência de que um único pacote de exames elimine o risco nessa população.
Monitoramento também não deve funcionar como licença para continuar aumentando doses. O objetivo é encontrar sinais precoces, reduzir exposição e permitir uma decisão informada.
Dismorfia muscular muda a percepção do próprio limite
Dismorfia muscular é a preocupação persistente de não ser grande ou musculoso o suficiente, mesmo quando o físico já está muito acima da média. Uma meta-análise com 31 estudos e 5.880 participantes encontrou mais sintomas entre fisiculturistas do que entre praticantes de treino de força não competitivos. Competidores apresentaram pontuações maiores que não competidores.
Os sintomas se associaram a ansiedade, depressão, perfeccionismo, baixa autoestima e insatisfação corporal. A direção da relação ainda é incerta. O ambiente competitivo pode agravar vulnerabilidades, enquanto pessoas já vulneráveis também podem ser atraídas por esse ambiente.
Anabolizantes acrescentam outra camada. Alterações de humor, agressividade, ansiedade e depressão podem ocorrer durante o uso ou a retirada. Isso não significa que toda pessoa que usa esteroides desenvolverá um transtorno, mas saúde mental precisa fazer parte da avaliação de risco.
Neil Currey mostra por que uma causa isolada pode enganar
Neil Currey morreu aos 34 anos depois de alcançar a classificação para o Olympia. O legista relacionou a morte a uma combinação letal de drogas recreativas, não diretamente aos esteroides. A família relatou, porém, que o uso de anabolizantes havia aumentado muito e coincidido com isolamento e depressão.
O laudo define a causa tóxica imediata. O relato familiar descreve o caminho que pode ter colocado o atleta naquela situação. Confundir os dois níveis seria incorreto, mas ignorar a interação entre imagem corporal, substâncias, isolamento e sofrimento psíquico também seria uma simplificação.
Polifarmácia e alimentação extrema ampliam a carga
O físico competitivo não é produzido por uma única droga. Protocolos podem combinar anabolizantes, hormônio do crescimento, insulina, hormônios tireoidianos, estimulantes, diuréticos, peptídeos e substâncias recreativas. Cada item acrescenta efeitos próprios e interações difíceis de prever.
A alimentação também pode entrar no extremo. Em protocolos com insulina, atletas chegam a consumir shakes com 100 g a 200 g de carboidratos ao redor do treino, numa tentativa de evitar hipoglicemia enquanto alcançam ingestões calóricas muito altas. Esse exemplo não deve ser copiado. Insulina sem indicação médica pode causar hipoglicemia grave, perda de consciência e morte.
Distensão abdominal, refluxo, alterações gastrointestinais e dificuldade para consumir o volume de comida exigido são consequências possíveis dessa busca por mais massa. O abdômen distendido que se tornou frequente em categorias abertas pode refletir múltiplos fatores, não um único composto.
Dinheiro, audiência e troféus apontam para o mesmo extremo
Premiação é apenas uma parte da economia do fisiculturismo. Patrocínios, audiência, cursos, suplementos, roupas e participação societária em marcas podem valer mais que o troféu. Quanto mais olhos um atleta atrai, maior sua capacidade de transformar o físico em negócio.
No palco, tamanho e condicionamento extremo recebem notas. Nas redes sociais, o físico mais chocante interrompe a rolagem e alimenta o algoritmo. A recompensa chega antes que os danos de longo prazo apareçam.
Treinadores e atletas ainda enfrentam a chamada “febre do cume”, analogia emprestada do montanhismo. Perto do objetivo, sinais de alerta e regras de segurança podem ser ignorados porque desistir parece desperdiçar toda a preparação. No fisiculturismo, o cume pode ser uma competição, uma classificação profissional ou uma foto capaz de viralizar.
O que poderia tornar o fisiculturismo mais seguro
- criar registro prospectivo e independente de mortes e eventos cardiovasculares.
- adotar avaliação médica específica para atletas competitivos, sem tratar exame normal como autorização para risco crescente.
- aumentar controle antidoping e rastreabilidade de substâncias.
- proibir práticas coercitivas de treinadores e estabelecer critérios claros para retirar um atleta da competição.
- disponibilizar desfibriladores e equipes treinadas em eventos.
- integrar saúde mental, dismorfia muscular e dependência de substâncias ao acompanhamento.
- valorizar categorias com limites de peso e físicos clássicos, reduzindo o incentivo ao crescimento sem teto.
- responsabilizar marcas e plataformas pela promoção de protocolos clandestinos ou perigosos.
A reação ao físico extremo já começou
Federações naturais com testes antidoping estão crescendo, enquanto criadores de conteúdo contrários ao abuso de substâncias conquistaram audiências antes reservadas a defensores da química sem limite. A mudança mostra que existe público para um fisiculturismo menos dependente do choque.
Arnold Schwarzenegger também passou a criticar abdomens distendidos e a defender linhas clássicas, cintura controlada e um físico que o público comum ainda possa desejar. Essa reação cultural disputa espaço com uma sequência recente de mortes entre atletas nos 20 e 30 anos e com plataformas que continuam premiando o que parece maior, mais seco e mais extremo.
Conclusão
Os esteroides não são a única explicação para as mortes precoces no fisiculturismo, mas permanecem uma peça central. O risco surge da soma entre remodelamento cardíaco, aterosclerose, predisposição genética, polifarmácia, desidratação, diuréticos, pressão psicológica e recompensa financeira pelo extremo.
O estudo com 20.286 atletas mostra um problema real, sobretudo entre profissionais, sem permitir culpar uma única substância em todos os casos. Reduzir as mortes exige mais que exames ocasionais e homenagens depois da tragédia. É preciso mudar acompanhamento, regras, incentivos e o tipo de físico que o esporte escolhe premiar.
FAQ
Quantos fisiculturistas morreram no estudo?
Foram identificadas 121 mortes entre 20.286 competidores masculinos da IFBB acompanhados, em média, por 8,1 anos. A idade média nos óbitos foi de 45,3 anos.
Qual foi a causa de morte mais frequente?
A morte cardíaca súbita foi a causa específica mais frequente, com 46 casos, equivalentes a aproximadamente 38% de todos os óbitos encontrados.
Profissionais correm mais risco que amadores?
Na coorte, profissionais apresentaram risco de morte cardíaca súbita 5,23 vezes maior que amadores. O estudo é observacional e não demonstra qual exposição produziu individualmente essa diferença.
Esteroides foram responsáveis por todas as mortes?
Não é possível afirmar isso. Os anabolizantes têm efeitos cardiovasculares documentados, mas havia dados incompletos sobre doses, histórico familiar, outras drogas e autópsias. Diferentes fatores podem ter atuado juntos.
Exames de sangue normais significam que o coração está seguro?
Não. Exames laboratoriais são importantes, mas podem não detectar alterações estruturais, fibrose, placas coronarianas ou todas as arritmias. Avaliação cardiovascular precisa ser individualizada.
Desidratação de competição pode afetar o coração?
Sim. Restrição extrema de líquidos e uso de diuréticos podem alterar eletrólitos, prejudicar os rins e favorecer arritmias. Nenhum protocolo de desidratação deve ser improvisado.
Referências
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