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Reposição de testosterona: riscos e por que médicos dizem não

No maior ensaio, a reposição não aumentou infarto, mas trouxe arritmia e fraturas, e a fertilidade corre risco. Veja quem precisa e por que médicos recusam.

Quais são os riscos da reposição de testosterona? No maior ensaio já feito, com mais de 5 mil homens, o tratamento não aumentou infarto, AVC nem morte cardiovascular, mas trouxe mais fibrilação atrial, mais lesão nos rins e mais fraturas. Somam-se a isso o hematócrito alto, que deixa o sangue mais grosso, a queda da produção de esperma e um tratamento que costuma durar anos, porque o corpo para de fabricar o hormônio enquanto recebe a dose de fora. Mesmo assim, muitos médicos ainda recusam por outros motivos: medos antigos de infarto e de câncer de próstata e uma regulação desenhada para combater o doping.

A urologista Rena Malik resume em "Why Most Doctors Say NO to Testosterone And Why it Might Be Killing you." o painel de especialistas que a FDA, a agência de medicamentos dos Estados Unidos, reuniu em 10 de dezembro de 2025. Para ela, falta acesso para quem tem deficiência real e sobra prescrição apressada para quem quer só subir o número no exame.

Quem precisa de reposição de testosterona

A reposição é para quem tem deficiência: sintomas compatíveis e testosterona baixa confirmada em exame. Os sintomas mais típicos são queda de libido, menos ereções espontâneas, cansaço, perda de massa muscular, aumento de gordura, humor deprimido, anemia e ossos mais fracos. Muitos deles também aparecem com sono ruim, obesidade, diabetes, álcool, remédios e depressão, por isso os sintomas sozinhos não fecham o diagnóstico, e o exame precisa confirmar.

O exame é a testosterona total colhida pela manhã, em jejum, repetida em outro dia. A Associação Americana de Urologia (AUA) usa 300 ng/dL como corte. A Endocrine Society, a sociedade americana de endocrinologia, usa 264 ng/dL, o limite inferior de uma faixa medida em mais de 9 mil homens jovens. O posicionamento brasileiro de 2026, das sociedades de endocrinologia e de urologia, chama de baixo o que fica abaixo de 264 ng/dL e considera em geral normal o que passa de 350. Entre os dois, manda calcular a testosterona livre, a parte do hormônio que circula solta no sangue e age nos tecidos.

Segundo o autor da diretriz da AUA, que estava no painel, o corte de 300 saiu dos critérios de entrada dos ensaios, em que o nível típico ficava perto de 280 ng/dL, e o texto da diretriz admite tratar homens acima disso que tenham muitos sintomas. Cada função do corpo também responde a um nível diferente: num estudo que baixou e repôs o hormônio de forma controlada, a gordura começou a subir abaixo de cerca de 340 ng/dL, e a massa magra só caiu com cerca de 190 ou menos. Por isso, a meta é aliviar os sintomas, e perseguir 800 ng/dL só porque parece um número bonito foge do tratamento.

Segundo painelistas, a idade sozinha derruba pouco a testosterona, e ganho de peso, diabetes e doenças crônicas pesam mais. Num levantamento americano, 24% dos homens tinham testosterona total abaixo de 300 ng/dL, mas só 5,6% dos homens de 30 a 79 anos tinham deficiência com sintomas, número que chegou a 18,4% aos 70 anos. No mesmo levantamento de Boston, só 12% dos homens com deficiência sintomática estavam em tratamento. A faixa ideal de testosterona na reposição tem matéria própria.

Por que tantos médicos dizem não

Muitos médicos ainda acreditam que testosterona causa infarto e câncer de próstata, ideias que vieram de estudos antigos com muita repercussão na imprensa e que o TRAVERSE não confirmou. Nos Estados Unidos, a testosterona também está na mesma lista de controle de outros anabolizantes desde uma lei de 1990, criada em resposta ao doping no esporte e no fisiculturismo. Painelistas da FDA disseram que essa classificação faz médicos terem medo de prescrever e até de pedir o exame.

A regra também pesa no acesso. A receita de controlados por teleconsulta, liberada na pandemia, vale até 31 de dezembro de 2026. Sem nova regra, volta a exigência de consulta presencial. No Brasil, a testosterona fica na lista C5 da Anvisa, com receita de controle especial, e a resolução do Conselho Federal de Medicina de 2023 proíbe receitar anabolizantes para estética, ganho de massa ou desempenho.

O medo de vício tem fundamento só em dose alta. Em dose de reposição, não há relato de dependência. Em doses de ciclo, cerca de 30% dos usuários desenvolvem dependência, com abstinência marcada por depressão, cansaço, libido baixa e às vezes pensamentos suicidas. Um painelista, presidente de uma empresa que vende testosterona oral, chegou a dizer que o hormônio tem menos potencial de abuso que a cafeína, frase que esses dados contradizem.

Há ainda o compromisso de longo prazo. Enquanto recebe testosterona de fora, o corpo para de produzir a sua, e quem começa costuma ficar no tratamento por anos. Quando a causa é tratável, como obesidade, remédios ou outra doença, a testosterona pode voltar sem reposição. A pergunta sobre se a reposição é para sempre depende da causa da deficiência.

O que o TRAVERSE mostrou sobre os riscos

O TRAVERSE, publicado em 2023, sorteou 5.246 homens de 45 a 80 anos, com doença do coração ou alto risco, sintomas e duas dosagens abaixo de 300 ng/dL, para gel de testosterona a 1,62% ou placebo. Os homens foram acompanhados por 33 meses em média, mas muitos pararam antes e o tratamento em si durou cerca de 22 meses. Infarto, AVC e morte cardiovascular, somados, ocorreram em 7,0% contra 7,3%, e a testosterona ficou dentro do limite que o estudo aceitava como seguro.

Desfecho no TRAVERSETestosteronaPlacebo
Infarto, AVC ou morte cardiovascular7,0%7,3%
Fibrilação atrial3,5%2,4%
Lesão renal aguda2,3%1,5%
Fraturas3,5%2,5%
Câncer de próstata de alto grau0,19%0,12% (sem diferença)
Anemia corrigida em 6 meses41%27,5%

A testosterona aumentou a fibrilação atrial, um tipo de arritmia, e a lesão renal aguda, e houve mais embolia pulmonar. As fraturas foram mais comuns no grupo tratado, o que surpreende quem associa testosterona a ossos fortes. Para a próstata, câncer de alto grau e sintomas urinários ficaram iguais, mas o estudo excluiu homens com PSA acima de 3,0 e sintomas urinários graves, e os casos foram raros.

Nos subestudos, a testosterona corrigiu mais casos de anemia e melhorou o desejo e a atividade sexual, sem melhorar a ereção. Humor e energia melhoraram pouco, e a progressão do pré-diabetes para o diabetes ficou igual ao placebo. O estudo usou gel em dose de reposição, e os resultados não se aplicam a doses de ciclo.

Diabetes, artérias e testosterona

No estudo australiano T4DM, 1.007 homens de 50 a 74 anos, com barriga grande e risco de diabetes ou diabetes recente, receberam undecanoato de testosterona injetável ou placebo, os dois junto com um programa de dieta e exercício. Eles tinham testosterona baixa ou no limite, mas sem doença que justificasse reposição. Ao fim de dois anos, 12% dos tratados tinham diabetes, contra 21% no placebo, 41% a menos. O preço foi o sangue grosso: o hematócrito passou de 54% em 22% dos tratados, contra 1% no placebo.

O TRAVERSE, com gel e sem programa de estilo de vida, não repetiu o efeito sobre o diabetes. A diferença de dose, de forma de aplicação e de população pode explicar parte do desencontro, e os autores do TRAVERSE concluem que a testosterona sozinha não serve para prevenir ou tratar diabetes. Num terceiro ensaio, três anos de gel em 308 homens com 60 anos ou mais não fizeram a parede da carótida engrossar nem o cálcio das coronárias subir mais que no placebo, embora os autores avisem que o estudo não foi feito para provar segurança cardiovascular.

Testosterona baixa faz mal à saúde?

Homens com testosterona baixa têm mais diabetes, mais fraturas, mais depressão e morrem mais, mas números como "o dobro da mortalidade" e "502% mais diabetes", citados no painel, exageram. Numa meta-análise, homens com testosterona mais alta tiveram 42% menos risco de diabetes. Na maior análise de dados individuais, a mortalidade maior apareceu só abaixo de 213 ng/dL, e a testosterona baixa não se associou a novos eventos do coração. Doença também derruba a testosterona, então parte dessa ligação pode ser efeito, e nenhum ensaio mostrou ainda que tratar reduz a mortalidade.

Riscos da reposição e quem deve evitar

Na reposição bem feita, os efeitos mais comuns são aumento do hematócrito, acne, oleosidade, inchaço, sensibilidade nas mamas, piora de apneia do sono e subida da pressão. Por isso, o acompanhamento inclui hemograma, PSA e pressão. A Endocrine Society desaconselha começar em quem quer ter filhos em breve, tem hematócrito alto, câncer de próstata ou de mama, PSA alto sem avaliação de urologista, apneia grave sem tratamento, insuficiência cardíaca descompensada, infarto ou AVC recentes ou trombofilia.

A testosterona de fora desliga os sinais do cérebro que mandam os testículos produzirem esperma, e isso vale também para a dose de reposição. Num estudo da OMS, 200 mg de enantato por semana, perto do dobro da reposição, deixaram 65% dos homens sem espermatozoides em seis meses, em média em 120 dias. Para quem quer ter filhos, a AUA prefere outros caminhos: hCG, um hormônio que estimula os testículos, clomifeno, que faz o cérebro liberar mais sinal, ou inibidores de aromatase, que reduzem a conversão em estrogênio.

A volta da produção depois de parar divide os estudos. Em homens jovens e saudáveis de estudos de contracepção, a recuperação chegou a 100% em 24 meses. Em 66 homens que chegaram à clínica já inférteis depois da reposição, mesmo tratados com hCG e clomifeno, só 70% voltaram a ter mais de 5 milhões de espermatozoides móveis em um ano, e o resultado piorou com a idade e com o tempo de uso. A parada da reposição depois de anos tem os detalhes.

Clínicas online e suplementos

Do lado oposto ao médico que recusa está a clínica que vende fácil. Num estudo com um paciente fictício de 34 anos, testosterona de 675 ng/dL e desejo de ter filhos, seis de sete plataformas americanas de venda direta ofereceram testosterona, e só uma perguntou sobre fertilidade. As prescrições de testosterona triplicaram nos Estados Unidos entre 2001 e 2011, e hoje a venda online facilita o acesso. No painel, a preocupação foi com receitas para queixas vagas como cansaço e com homens jovens comprando pela internet.

Quem não consegue receita às vezes compra de fora, sem saber o que está no frasco. E os "boosters" de testosterona vendidos como suplemento podem esconder hormônio: entre 776 suplementos com alerta da FDA por adulteração, os de sexo e de emagrecimento lideraram, e 89% dos de músculo tinham esteroide ou algo parecido. Numa análise química de 634 suplementos de 13 países, 14,8% tinham esteroides que o rótulo omitia.

Reposição não é ciclo

Num estudo clássico de 1996, 43 homens receberam 600 mg de testosterona por semana, cerca de seis vezes a reposição, ou placebo, com ou sem treino, por dez semanas. Quem só tomou testosterona ganhou 9 kg no supino e 16 kg no agachamento, e também ganhou músculo em relação a quem não treinou nem tomou nada. Quem juntou testosterona e treino teve os maiores ganhos: 22 kg no supino e 38 kg no agachamento. No painel, a leitura foi que, na força, quem só treinou se saiu pelo menos tão bem quanto quem só tomou a droga. A lição para quem treina é que o treino responde por boa parte do resultado, e a droga soma em cima dele.

Em doses de ciclo, os riscos são outros. Coração aumentado, arritmia, pressão alta, lesão no fígado com os orais, infertilidade, atrofia dos testículos, agressividade, depressão e lesões de tendão aparecem nas revisões. Os números que circulam, de infarto 15 vezes e morte 120 vezes mais comuns, não aparecem nos estudos: numa coorte dinamarquesa, a mortalidade de usuários foi três vezes maior. Cerca de 3,3% das pessoas no mundo já usaram anabolizantes, e nos Estados Unidos as estimativas ficam entre 2,9 e 4,0 milhões. Quem já usa sem receita ganha com uma avaliação médica sem julgamento, com pressão, hemograma, fígado e fertilidade. O limite entre reposição e dose alta é tema de outra matéria.

Testosterona junto com remédios para emagrecer

No painel, o presidente de uma empresa que vende testosterona defendeu aprovar o hormônio junto com os remédios para emagrecer da classe do GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, para evitar perda de músculo. Não existe ensaio sorteado que teste essa combinação, só um piloto com 10 homens. Esses remédios, aliás, costumam aumentar a testosterona de homens com obesidade. Treino de força e proteína suficiente seguem como a forma testada de proteger o músculo durante o emagrecimento, e quem usa esses remédios e tem deficiência com sintomas segue o critério de sempre.

O que mudou na FDA e como fica no Brasil

Em fevereiro de 2025, a FDA mandou incluir o TRAVERSE nas bulas, tirou o alerta em caixa sobre risco cardiovascular, pediu aviso de aumento de pressão e manteve a limitação de uso no hipogonadismo ligado à idade. Os géis seguem com o alerta de exposição de crianças e mulheres ao produto. Depois do painel, em abril de 2026, a agência convidou fabricantes a pedir uma nova indicação para libido baixa no hipogonadismo sem causa definida, sem aprovação conhecida até novembro de 2026. Em junho de 2026, o governo americano pediu aos fabricantes que tirassem da bula a limitação ligada à idade, revissem os avisos de próstata aumentada e restringissem a contraindicação ao câncer de próstata com metástase. Até agosto de 2026, as bulas publicadas ainda não traziam essa mudança.

Nada disso muda a bula brasileira, que segue a Anvisa. Aqui há registros ativos de testosterona em gel (Androgel® e Testogel®), cipionato (Deposteron®), undecilato, o mesmo undecanoato do T4DM (Nebido® e Hormus®), e mistura de ésteres (Durateston®), e a prescrição exige receita de controle especial. A reposição continua sendo tratamento de deficiência confirmada, com acompanhamento de urologista ou endocrinologista.

Conclusão

A testosterona deixou de ser vilã do coração no maior ensaio já feito, mas é um tratamento com riscos conhecidos. Ela faz sentido para o homem com sintomas e exames baixos repetidos, acompanhado de perto, e perde o sentido para quem quer só subir um número. Se você suspeita de deficiência, peça duas dosagens matinais em jejum a um urologista ou endocrinologista e decida com ele, sabendo que filhos, sangue e pressão entram na conta.

Perguntas frequentes

Reposição de testosterona faz mal ao coração?

No maior ensaio, com mais de 5 mil homens de alto risco, a reposição com gel não aumentou infarto, AVC nem morte cardiovascular. Ela aumentou a fibrilação atrial, a lesão renal aguda e as fraturas, e pode subir a pressão e o hematócrito. Por isso, exige acompanhamento.

Reposição de testosterona causa infertilidade?

Pode causar, mesmo em dose de reposição. Em homens jovens e saudáveis a produção costuma voltar em até dois anos depois de parar, mas em quem já chegou infértil à clínica a volta foi mais lenta e incompleta. Quem pretende ter filhos deve decidir isso com o médico antes de começar.

A reposição de testosterona é para sempre?

Costuma ser longa, porque o corpo para de produzir enquanto recebe o hormônio de fora. Quando a causa é tratável, como obesidade ou remédios, a testosterona pode voltar sem reposição. Parar exige acompanhamento, porque o eixo hormonal demora a religar.

O que é considerado testosterona baixa?

Testosterona total abaixo de 264 a 300 ng/dL, colhida pela manhã, em jejum, em dois dias diferentes, junto com sintomas. Entre 264 e 350 ng/dL, o posicionamento brasileiro manda calcular a testosterona livre. A idade sozinha, aos 40 ou aos 60 anos, não define a indicação.

Qual médico faz reposição de testosterona?

Urologista e endocrinologista são os especialistas que investigam a causa, pedem os exames e acompanham hematócrito, PSA e pressão. No Brasil, a receita é de controle especial, e o Conselho Federal de Medicina proíbe prescrever para estética ou ganho de massa.

Diabético ou hipertenso pode fazer reposição de testosterona?

Pode, se tiver deficiência confirmada, e muitos homens dos ensaios tinham essas doenças. A testosterona não substitui o tratamento do diabetes: no maior ensaio ela não impediu a progressão do pré-diabetes. Na pressão alta, o controle precisa estar feito, porque a testosterona pode subir a pressão.

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