Pular para o conteúdo
Imagem sintética e meramente ilustrativa. Não é uma foto real.

Como saber se o whey é bom: o caso Sunfit e 3 perguntas

O caso do whey de R$ 44,90 da Sunfit ensina três perguntas para saber se o whey é bom antes de comprar, e se você precisa mesmo dele.

Para saber se o whey é bom antes de comprar, três perguntas resolvem boa parte da dúvida: se o preço fecha com o custo da matéria-prima, o que aparece primeiro na lista de ingredientes e quanto da porção é proteína. O assunto ganhou audiência em setembro de 2026, quando um pote de 900 g de whey da Sunfit, anunciado pelo influenciador Pobre Loco por R$ 44,90, virou briga na internet, com milhões de visualizações e ameaças de processo.

O endocrinologista Carlos Eduardo Seraphim usou o caso, em "Whey é realmente necessário? Analisando o escândalo do Pobre Loco!", para explicar o que é o whey, como conferir um pote sem laboratório e se o suplemento é mesmo necessário.

O caso do whey de R$ 44,90

Em 1º de setembro, Pobre Loco anunciou a Sunfit como patrocinadora e divulgou o pote de 900 g por R$ 44,90. Segundo o anúncio, havia 10 mil potes em estoque, e o produto foi apresentado como 100% whey. O preço chamou a atenção de outros criadores do meio, como Gorgonoid, Tinho Lima e Félix Bonfim. Caio Maca fez um teste com biureto, um reagente que fica roxo na presença de proteína, e comparou o pó com farinha de trigo. A cor ficou parecida.

As explicações mudaram ao longo das semanas. Primeiro, a marca estaria aceitando prejuízo para conquistar mercado. Depois, o produto seria um blend proteico com laudo. Por fim, o dono da marca disse num podcast que lançou sem laudo próprio porque confiou na fábrica terceirizada. Félix Bonfim divulgou então um laudo de laboratório com 14 g de proteína por porção, contra 23 g declarados, e 17 g de carboidrato, contra 9,5 g. O dono da Sunfit contestou, falou em fraude e prometeu processar. O resultado vale para a amostra analisada, e, se o caso for à Justiça, é lá que se decide quem tem razão.

No teste caseiro, o biureto mostra se há proteína, mas não mede com precisão quanto. A cor muda na presença de ligações entre aminoácidos, que também existem na proteína do trigo. Como interpretar o teste está em teste de biureto no whey: o que a cor revela.

Do lixo ao luxo: o que é o whey

Whey é a proteína do soro do leite. Quando o leite talha para virar queijo, a parte sólida vira queijo e sobra um líquido amarelado, o soro. Para cada quilo de queijo, sobram cerca de 9 litros. Até os anos 1970, a indústria não sabia o que fazer com ele: jogava no rio, onde a matéria orgânica consome o oxigênio da água e mata os peixes, ou dava para os porcos. A ultrafiltração por membrana, uma espécie de peneira finíssima, passou a separar a proteína da lactose e dos sais, e o resíduo virou suplemento.

O soro tem cerca de 20% da proteína do leite, e os outros 80% são caseína. A caseína coalha no estômago e é digerida devagar. O soro passa rápido. Um estudo francês de 1997 criou os termos proteína rápida e proteína lenta: o whey subiu os aminoácidos no sangue de forma rápida e curta, e a caseína, num platô mais longo. Por ser rápido e rico em leucina, o aminoácido que liga a construção de músculo, o whey ganhou fama de melhor proteína.

Como saber se o whey é bom: três perguntas

1. O preço fecha?

O whey concentrado com 80% de proteína, o WPC80, é vendido como commodity, com cotação como a da soja e do café. Por uma estimativa feita com base no relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos de setembro de 2026, o quilo custava de R$ 120 a R$ 140. A demanda subiu com a moda de pôr proteína em tudo e com os milhões de pessoas usando canetas para emagrecer, que precisam de mais proteína.

Um pote de 900 g de whey de verdade leva cerca de 750 g de WPC80. Só esse ingrediente custaria de R$ 90 a R$ 105, sem contar pote, rótulo, sabor, imposto, a comissão de 20% do marketplace, o frete grátis e a parte do influenciador. Com 10 mil potes, vender WPC80 de verdade a esse preço exigiria cobrir perto de R$ 1 milhão do próprio bolso, numa conta por baixo. Em preços de atacado estimados para o mesmo mês, o isolado de soja chinês sai por uns R$ 11 o quilo, e a proteína de trigo e a maltodextrina, por uns R$ 10. Preço muito abaixo do custo da matéria-prima é o primeiro sinal de alerta.

2. O que vem primeiro nos ingredientes?

A lista de ingredientes segue a ordem da quantidade: o que vem primeiro é o que tem mais. Se ela traz proteína do soro do leite, depois soja e depois trigo, o produto é um blend proteico, uma mistura de proteínas. Não há problema em ser blend. O problema é vender blend como whey. A Anvisa orienta conferir também a tabela nutricional, as advertências, a validade, a origem e o lote. Quando um blend faz sentido está em blend proteico: como escolher entre whey, soja e colágeno.

3. Quanto da porção é proteína?

Divida os gramas de proteína da porção pelo peso da porção. Um rótulo com 24 g de proteína em 30 g de pó dá 80%. Um whey concentrado decente fica acima de 70%, e um isolado, acima de 80%. Abaixo de 60%, ou é blend ou é um concentrado fraco, como o WPC34, com cerca de 34% de proteína e o resto quase todo lactose, usado em padaria, no pão de forma.

A conta confere o que o rótulo promete, e não o que está no pote. Num estudo de 2016 com 20 marcas de whey, 7 das 10 brasileiras e 4 das 10 americanas tinham menos proteína do que o rótulo dizia. Laudos de marcas conhecidas estão em Dark Lab, Growth ou Max Titanium: o laudo de cada whey.

Por que o teste de proteína pode ser enganado

Em 2008, na China, fornecedores de leite diluíram o produto com água para render mais e, para disfarçar a queda de proteína, acrescentaram melamina, um composto industrial usado em resina e plástico. O leite passou nos testes. Cerca de 300 mil bebês e crianças tiveram problemas nos rins e nas vias urinárias, como cálculos, e seis morreram.

O motivo é que o teste mais usado não mede proteína, e sim nitrogênio. O método de Kjeldahl, criado em 1883, queima a amostra, mede o nitrogênio e multiplica por um fator para chegar à proteína. Qualquer substância rica em nitrogênio infla o resultado. A melamina tem muito nitrogênio, e compostos baratos como glicina, taurina e creatina também têm. No laudo, tudo isso conta como proteína. A fraude ganhou o nome de amino spiking.

Para pegar esse tipo de fraude, é preciso um aminograma, que separa e conta os aminoácidos um a um. O whey tem uma assinatura, com leucina e lisina altas. O trigo tem pouca lisina, e excesso de trigo muda o perfil.

Quem confere o pote, no Brasil e fora

Na Índia, em 2024, um grupo de médicos comprou 36 suplementos de proteína e mandou analisar. Vinte e cinco, ou 69%, tinham menos proteína do que o rótulo, e 75% tinham chumbo, em nível de traço. Na União Europeia, os nomes de produtos lácteos são reservados a produtos feitos de leite: em 2017, o Tribunal de Justiça barrou nomes como "leite", "manteiga" e "queijo" em produtos vegetais. A regra europeia é mais dura que a brasileira com o que pode levar nome de laticínio.

No Brasil, a regra da Anvisa obriga o produto a ser designado como "suplemento alimentar", seguido da forma, como pó, e permite completar com o nome do nutriente, como proteína. Como a designação obrigatória não inclui a palavra, "whey" entra como nome comercial. Por isso, o nome na frente do pote diz pouco sobre quanto de proteína do soro ele tem, e a lista de ingredientes e a tabela contam mais.

Na prática, boa parte dos laudos de teor de proteína que chegam ao público é paga do próprio bolso por youtubers, associações de fabricantes e comerciantes. Todos têm conflito de interesse, o que não quer dizer que mintam, mas que podem ser influenciados.

Whey é melhor que outras proteínas?

Num estudo canadense de 2009 com 18 homens jovens, logo depois do treino, o whey estimulou a construção de músculo cerca de 122% mais que a caseína e 31% mais que a soja. Mas essa é uma resposta medida em horas, no laboratório. O que importa é o que sobra depois de meses de treino.

Uma metanálise de 2025 juntou 30 ensaios comparando proteína animal e vegetal. A animal levou vantagem pequena em massa muscular, presente em quem tinha menos de 60 anos e ausente nos mais velhos. Na força, não houve diferença, e a soja empatou com a proteína do leite. Quem perdeu foram as proteínas vegetais mais fracas, como arroz, aveia e batata.

Na USP, 19 homens jovens veganos e 19 onívoros, todos sem experiência de musculação, treinaram por 12 semanas, com 1,6 g de proteína por quilo por dia, completando com soja ou whey. Os dois grupos ganharam 1,2 kg de massa magra na perna. Nos idosos, uma metanálise de 2026 que juntou 235 ensaios e quase 21 mil pessoas comparou 24 combinações de proteína e exercício. Whey com musculação ficou em primeiro lugar no ranking para músculo e força da perna. Esse ranking mede a combinação contra outras opções e contra não suplementar, e não um confronto direto entre whey e soja. A musculação faz parte do resultado. A calculadora de proteína diária mostra quanto você precisa por dia.

Quanto custa 1 grama de proteína

Numa estimativa de preços de setembro de 2026, o whey não é a proteína mais barata:

Fonte de proteínaCusto estimado por grama de proteína
Whey concentrado de marca grandeAté cerca de R$ 0,38
Peito de frangoCerca de R$ 0,10
OvoCerca de R$ 0,16
LeiteCerca de R$ 0,18
Leite em pó desnatadoCerca de R$ 0,20
Pote da Sunfit, se o rótulo fosse verdadeiroCerca de R$ 0,085

O pote de R$ 44,90 sairia mais barato que o frango por grama de proteína, o que reforça o alerta do preço. A troca entre whey e comida está em frango ou whey: 30 g de whey equivalem a quanto de frango.

Conclusão

O caso Sunfit fala mais do mercado de suplementos do que das pessoas envolvidas. Num setor em que quase ninguém confere o teor de proteína, o consumidor tem três filtros: o preço que fecha com a matéria-prima, a ordem dos ingredientes e a porcentagem de proteína na porção. Nenhum deles prova o que está no pote, mas os três pegam os casos mais grosseiros. O problema não é ser blend, e sim vender blend como whey, se isso se confirmar.

Whey também não é obrigatório. Sempre que possível, o mais indicado é tirar a proteína da comida. O whey é uma praticidade para a vida corrida, ou uma ajuda para quem usa remédio para emagrecer e não consegue comer proteína suficiente. Se não dá para comprar um whey bom, um blend honesto tende a valer mais que um whey duvidoso: a diferença entre as proteínas existe, mas é pequena.

Perguntas frequentes

Como saber se o whey é bom?

Confira três coisas: se o preço fecha com o custo da matéria-prima, se a proteína do soro vem primeiro na lista de ingredientes e quanto da porção é proteína. Um concentrado decente passa de 70%, e um isolado, de 80%. As três checagens filtram os casos grosseiros, mas só um laudo prova o que tem no pote.

Como calcular se o whey é bom?

Divida os gramas de proteína da porção pelo peso da porção. Com 24 g de proteína em 30 g de pó, por exemplo, dá 80%. Acima de 70% é um concentrado decente, acima de 80% é isolado, e abaixo de 60% é blend ou concentrado fraco.

Como saber se o whey é 100% puro?

Pela lista de ingredientes: num whey puro, a proteína do soro do leite aparece sozinha ou primeiro, sem soja, trigo ou outras proteínas. Mesmo assim, só um laudo com aminograma confirma, porque o teste comum mede nitrogênio e pode ser enganado.

O whey da Sunfit é bom?

Um laudo divulgado pelo criador de conteúdo Félix Bonfim encontrou 14 g de proteína por porção, contra 23 g no rótulo, e 17 g de carboidrato, contra 9,5 g. A marca contestou e falou em processar. O resultado vale para a amostra analisada, e a disputa ainda pode ir à Justiça.

Whey é necessário?

Não. A proteína pode vir da comida, e o whey é uma praticidade, útil para quem tem pouco tempo ou usa remédio para emagrecer e não consegue comer proteína suficiente. Numa metanálise de 2025, a vantagem da proteína animal sobre a vegetal em massa muscular foi pequena, e soja e proteína do leite empataram.

Referências

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Lembre-se de ler o rótulo com atenção. Anvisa. Brasília, DF, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/alimentos/suplementos-alimentares/lembre-se-de-ler-o-rotulo-com-atencao. Acesso em: 2 nov. 2026.
  2. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 243, de 26 de julho de 2018: dispõe sobre os requisitos sanitários dos suplementos alimentares. Anvisa. Brasília, DF, 26 jul. 2018. Disponível em: https://anvisalegis.datalegis.net/action/ActionDatalegis.php?acao=abrirTextoAto&tipo=RDC&numeroAto=00000243&seqAto=000&valorAno=2018&orgao=RDC%2FDC%2FANVISA%2FMS&codTipo=&desItem=&desItemFim=&cod_menu=9434&cod_modulo=310&pesquisa=true. Acesso em: 2 nov. 2026.
  3. ALMEIDA, C. C. et al. Protein and amino acid profiles of different whey protein supplements. Journal of Dietary Supplements, [S. l.], v. 13, n. 3, p. 313-323, 2016. DOI: 10.3109/19390211.2015.1036187. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26317267/. Acesso em: 2 nov. 2026.
  4. BOIRIE, Y. et al. Slow and fast dietary proteins differently modulate postprandial protein accretion. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, [S. l.], v. 94, n. 26, p. 14930-14935, dez. 1997. DOI: 10.1073/pnas.94.26.14930. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9405716/. Acesso em: 2 nov. 2026.
  5. GOSSNER, C. M.-E. et al. The melamine incident: implications for international food and feed safety. Environmental Health Perspectives, [S. l.], v. 117, n. 12, p. 1803-1808, dez. 2009. DOI: 10.1289/ehp.0900949. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20049196/. Acesso em: 2 nov. 2026.
  6. HEVIA-LARRAÍN, V. et al. High-protein plant-based diet versus a protein-matched omnivorous diet to support resistance training adaptations: a comparison between habitual vegans and omnivores. Sports Medicine, [S. l.], v. 51, n. 6, p. 1317-1330, jun. 2021. DOI: 10.1007/s40279-021-01434-9. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33599941/. Acesso em: 2 nov. 2026.
  7. LIN, C. L. et al. Explore the optimal treatment regimen across combinations of variate protein sources and exercise modalities and its associated factors in older adults: a network meta-analysis and meta-regression of randomized controlled trials. Nutrients, [S. l.], v. 18, n. 9, art. 1409, abr. 2026. DOI: 10.3390/nu18091409. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42124009/. Acesso em: 2 nov. 2026.
  8. MOORE, J. C. et al. Total protein methods and their potential utility to reduce the risk of food protein adulteration. Comprehensive Reviews in Food Science and Food Safety, [S. l.], v. 9, n. 4, p. 330-357, jul. 2010. DOI: 10.1111/j.1541-4337.2010.00114.x. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33467839/. Acesso em: 2 nov. 2026.
  9. PHILIPS, C. A. et al. Citizens protein project: a self-funded, transparent, and concerning report on analysis of popular protein supplements sold in the Indian market. Medicine, [S. l.], v. 103, n. 14, art. e37724, abr. 2024. DOI: 10.1097/MD.0000000000037724. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38579036/. Acesso em: 2 nov. 2026.
  10. REID-MCCANN, R. J. et al. Effect of plant versus animal protein on muscle mass, strength, physical performance, and sarcopenia: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Nutrition Reviews, [S. l.], v. 83, n. 7, p. e1581-e1603, jul. 2025. DOI: 10.1093/nutrit/nuae200. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39813010/. Acesso em: 2 nov. 2026.
  11. SERAPHIM, Carlos Eduardo. Whey é realmente necessário? Analisando o escândalo do Pobre Loco!. [S. l.], 27 set. 2026. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kQJfOF0V9HY. Acesso em: 2 nov. 2026.
  12. TANG, J. E. et al. Ingestion of whey hydrolysate, casein, or soy protein isolate: effects on mixed muscle protein synthesis at rest and following resistance exercise in young men. Journal of Applied Physiology, [S. l.], v. 107, n. 3, p. 987-992, set. 2009. DOI: 10.1152/japplphysiol.00076.2009. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19589961/. Acesso em: 2 nov. 2026.
  13. UNIÃO EUROPEIA. TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Judgment of the Court of Justice in Case C-422/16, Verband Sozialer Wettbewerb v TofuTown.com: press release 63/17. Tribunal de Justiça da União Europeia. Luxemburgo, 14 jun. 2017. Disponível em: https://curia.europa.eu/jcms/upload/docs/application/pdf/2017-06/cp170063en.pdf. Acesso em: 2 nov. 2026.

Vídeo no YouTube sobre o tema

Feedback do Usuário

Comentários Recomendados

Não há comentários para exibir.

Crie uma conta ou entre para comentar

Conta

Navegação

Buscar

Buscar

Configure browser push notifications

Chrome (Android)
  1. Tap the lock icon next to the address bar.
  2. Tap Permissions → Notifications.
  3. Adjust your preference.
Chrome (Desktop)
  1. Click the padlock icon in the address bar.
  2. Select Site settings.
  3. Find Notifications and adjust your preference.