Qual a dose de testosterona para hipertrofia? O estudo de referência sobre isso, do endocrinologista Shalender Bhasin, deu a homens jovens doses fixas de enantato de testosterona, de 25 a 600 mg por semana, durante 20 semanas, sem treino. Com menos de 125 mg, os grupos não ganharam músculo. Com 125 mg, que no estudo substituíram toda a testosterona do corpo e a deixaram no meio da faixa normal, já houve ganho de massa magra. Os ganhos grandes de força e potência só apareceram com 300 e 600 mg, e os efeitos colaterais subiram junto.
O estudo foi explicado pelo médico João Diniz, residente de medicina esportiva na USP e ex-atleta de fisiculturismo que só começou a usar hormônio em 2021, para competir, e parou em 2026 (antes disso, com cerca de 40 cm de braço, já ouvia perguntas sobre o que tomava), em "Qual a dose de Testosterona para Hipertrofia? O Estudo de Bhasin Explicado". A matéria não é recomendação de uso: no Brasil, desde 2023, o médico não pode receitar anabolizante com finalidade estética ou de ganho de massa.
Como foi o estudo de Bhasin
Sessenta e um homens de 18 a 35 anos, todos com experiência em musculação e sem uso anterior de anabolizante, receberam primeiro um remédio que desliga a produção própria de testosterona. Depois, cada grupo passou a receber uma dose fixa de enantato por semana: 25, 50, 125, 300 ou 600 mg. A dieta foi padronizada, com 1,2 g de proteína por quilo, e os voluntários foram orientados a não fazer musculação nem aeróbio intenso. Ou seja, todo o ganho veio da droga.
| Dose por semana | Testosterona no sangue (ng/dL) | Massa magra (kg) | Gordura (kg) | Volume da coxa (cm³) | Leg press (kg) |
|---|---|---|---|---|---|
| 25 mg | 253 | −1,0 (sem mudança real) | +3,1 | −14 (sem mudança real) | −1,2 (sem mudança real) |
| 50 mg | 306 | +0,6 (sem mudança real) | +3,5 | +11 (sem mudança real) | +22,7 |
| 125 mg | 542 | +3,4 | 0,0 | +56 | +18,4 (sem mudança real) |
| 300 mg | 1.345 | +5,2 | −0,5 | +84 | +72,2 |
| 600 mg | 2.370 | +7,9 | −1,1 (sem mudança real) | +126 | +76,5 |
A testosterona da tabela foi medida sete dias depois da injeção, logo antes da seguinte, quando o nível está mais baixo. A faixa normal de um homem jovem vai de cerca de 264 a 916 ng/dL. Com 25 mg, a testosterona ficou abaixo do normal, e com 50 mg, no limite de baixo da faixa. Nesses dois grupos, os homens não ganharam músculo e engordaram mais de 3 kg. Com 125 mg, ficaram no meio da faixa normal e ganharam 3,4 kg de massa magra.
Dose de reposição dá músculo?
Muita gente diz que 50 ou 125 mg por semana não mudam o físico. Para a força, a ideia vale em parte. Com 125 mg, a melhora no leg press não foi diferente do acaso, e a potência não mudou. Com 50 mg, o leg press até subiu 22,7 kg, mas a potência não mudou e o músculo não cresceu. Para o músculo, a dose de 125 mg funcionou: deu 3,4 kg de massa magra e 56 cm³ na coxa sem treinar. Só ficou bem abaixo das doses altas.
No mesmo desenho com homens de 60 a 75 anos, os pesquisadores concluíram que 125 mg foi o melhor equilíbrio: a testosterona ficou no alto da faixa normal, houve ganho de massa e força e poucos efeitos adversos.
O que é dose suprafisiológica
A diretriz da Endocrine Society para o hipogonadismo, a testosterona baixa de verdade, usa de 75 a 100 mg de enantato ou cipionato por semana, ou 150 a 200 mg a cada duas semanas, para levar o nível ao meio da faixa normal. No estudo, 300 mg por semana já deixaram a testosterona em 1.345 ng/dL, acima do normal. Por isso, como regra prática, a dose acima de 125 a 150 mg por semana entra no terreno suprafisiológico. Mais exato é olhar o nível no sangue, acima de cerca de 900 a 1.000 ng/dL.
Mais dose, mais músculo: até onde?
O ganho foi proporcional à dose, mas não em linha reta. A massa magra subiu numa curva que vai achatando: cada vez que o nível de testosterona dobra, o ganho aumenta mais ou menos o mesmo tanto. Na prática, cada miligrama a mais traz menos músculo que o anterior. Não houve teto até 600 mg, e o risco também não parou de subir. Biópsias do mesmo estudo mostraram fibras maiores e mais células satélites, que ajudam o músculo a crescer, só nas doses de 300 e 600 mg.
Com treino, o efeito soma. Num estudo anterior do mesmo grupo, com 600 mg por semana por 10 semanas, metade do tempo do outro estudo, quem tomou testosterona sem treinar ganhou 3,2 kg de massa magra, mais que quem só treinou com placebo (1,9 kg). Quem juntou testosterona e treino ganhou 6,1 kg e subiu 38 kg no agachamento.
E acima de 600 mg? Ninguém sabe ao certo, porque não existe ensaio controlado com doses maiores. A ideia de que os receptores de androgênio do músculo lotam e o excesso não serve para nada é uma hipótese antiga, vinda de estudos em ratos. Nos homens, o estudo de Bhasin testou essa ideia e não a confirmou. O que os dados mostram é retorno cada vez menor por miligrama, com risco cada vez maior. Doses de 10 g (10.000 mg) por semana, citadas em podcasts, são mais de 16 vezes a maior dose já estudada.
Mais dose, mais colateral
No estudo, o HDL, o colesterol bom, caiu e a hemoglobina subiu conforme a dose. Com 600 mg, o HDL caiu 8,4 mg/dL e a hemoglobina subiu 1,4 g/dL, o que engrossa o sangue. Houve acne em todas as doses, e um voluntário abandonou o estudo por causa dela. Nos homens mais velhos, as doses altas trouxeram hematócrito acima de 54%, inchaço e problemas de próstata com mais frequência.
No uso real, as doses são maiores, os ciclos são mais longos e as drogas vêm misturadas, e aí os danos ao coração aparecem. Usuários de longo prazo têm o músculo do coração mais pesado e bombeiam menos sangue: num estudo norueguês, a fração de ejeção, que mede quanto sangue o coração empurra a cada batida, foi de 49%, contra 59% em quem não usava, e cerca de 1 em cada 10 tinha 40% ou menos. A pressão sobe e a aorta fica mais rígida. Acne e queda de cabelo completam a lista dos efeitos androgênicos mais visíveis. A testosterona de fora também desliga a produção própria, o que pode reduzir a fertilidade, e há casos de crescimento de mama (ginecomastia). As causas de morte no esporte estão em por que fisiculturista morre cedo.
Por isso, para quem já usa, reduzir o dano passa pela menor dose possível, tirando o máximo dela. Pressão alta, sangue grosso e HDL baixo costumam não dar sintoma no começo, e só aparecem em exame e consulta com médico. Depois do ciclo, a produção própria demora a voltar, e o exame de LH e FSH ajuda a acompanhar, como explica LH e FSH baixos depois do ciclo.
Reposição: quem tem testosterona baixa e quem tem normal
No homem com hipogonadismo diagnosticado, a reposição devolve o nível ao normal e melhora sintomas. O diagnóstico exige sintomas e testosterona baixa confirmada em duas dosagens de manhã. No T Trials, ensaio com 790 homens de 65 anos ou mais e testosterona baixa, o gel de testosterona melhorou a função sexual e um pouco o humor, mas não melhorou a energia nem o cansaço.
Quem já tem testosterona normal e quer só subir o número, de 400 ou 500 para 800 ou 900 ng/dL, ganha pouco. Mesmo em homens com testosterona no limite baixo, a reposição trouxe pouco. Num ensaio de 3 anos com homens de 60 anos ou mais e testosterona baixa ou no limite baixo do normal, o gel levou o nível para 500 a 900 ng/dL. O desejo sexual, a ereção e a qualidade de vida não ficaram melhores que com placebo. A força, a potência e a massa magra subiram, mas pouco. Ganho estético grande, num homem saudável, só aparece em dose suprafisiológica, com os riscos que vêm com ela.
Quem usa hormônio e não progride tem um problema antes da dose
Treino bem feito soma com o hormônio: no estudo de 1996, a testosterona com treino deu 6,1 kg de massa magra, contra 3,2 kg sem treino. Quem tem duas, três ou quatro vezes a testosterona de um homem natural deveria, no mínimo, evoluir mais que ele. Supino, agachamento e levantamento terra servem de régua: se a carga não sobe em 6 meses, algo está errado no treino, na periodização, na dieta ou no descanso. Anotar as cargas é o primeiro passo.
A resposta ao treino, porém, varia de verdade entre as pessoas. Num estudo com 585 pessoas que treinaram o bíceps por 12 semanas, o aumento do músculo foi de −2% a +59%, e o da carga máxima, de 0% a +250%. No estudo de Bhasin, a resposta à testosterona também variou bastante dentro de cada dose. Tem gente que responde menos ao treino, o chamado ectomorfo, e a diferença é real. Para essas pessoas, anotar as cargas importa ainda mais.
Se não duvidam que você é natural, permaneça natural
A regra serve de filtro para quem pensa em começar. Se o físico ainda não chama atenção de ninguém, falta tempo de treino, de dieta e de constância. Começar o hormônio cedo, sem essa base, tende a exigir doses maiores para ver diferença, e mais dose traz mais colateral.
Conclusão
O estudo de Bhasin mostrou que o ganho de músculo com testosterona depende da dose: nada abaixo de 125 mg por semana, algum ganho com 125 mg e ganhos grandes, de força e potência, com 300 e 600 mg, tudo sem treino. O ganho cresce cada vez menos por miligrama, e os efeitos colaterais crescem junto. Acima de 600 mg não há estudo.
Para quem tem testosterona normal, subir o nível dentro da faixa traz pouco. Para quem pensa em usar, o treino, a dieta e o descanso bem feitos vêm antes, e vale a regra prática: se ninguém duvida que você é natural, continue natural.
Perguntas frequentes
Qual a dose de testosterona para ganhar massa muscular?
Não há dose recomendada para esse fim, e no Brasil o médico não pode receitar anabolizante para estética. No estudo de Bhasin, o ganho de massa magra começou em 125 mg de enantato por semana, sem treino, e os ganhos grandes de força apareceram com 300 e 600 mg, junto com mais efeitos colaterais.
O que 125 mg de testosterona por semana faz?
No estudo de Bhasin, com a produção própria desligada, 125 mg deixaram a testosterona no meio da faixa normal e deram 3,4 kg de massa magra em 20 semanas, sem treino. A força no leg press e a potência não mudaram de forma clara.
100 a 200 mg de testosterona por semana é dose de reposição?
Até cerca de 100 mg por semana, sim: a diretriz da Endocrine Society usa 75 a 100 mg por semana, ou 150 a 200 mg a cada duas semanas, para tratar testosterona baixa, com a dose ajustada pelo médico conforme o exame. Doses semanais acima de 125 a 150 mg tendem a passar do nível normal.
O que 300 e 600 mg de testosterona por semana fazem?
No estudo de Bhasin, 300 mg deram 5,2 kg de massa magra e 600 mg deram 7,9 kg em 20 semanas, sem treino, com ganhos claros de força e potência. Com 600 mg, o HDL caiu 8,4 mg/dL e a hemoglobina subiu. Acima de 600 mg não existe ensaio controlado.
50 mg de testosterona por semana dá resultado?
Não para músculo. No estudo de Bhasin, com a produção própria desligada, 50 mg deixaram a testosterona no limite de baixo da faixa normal, em 306 ng/dL. A massa magra não aumentou, e os homens ganharam 3,5 kg de gordura em 20 semanas.
Referências
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