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Imagem sintética e meramente ilustrativa. Não é uma foto real.

Daniel Montalvão: 35 anos de fisiculturismo e a quebra do dogma do carboidrato

A experiência de Daniel Montalvão mostra por que carboidrato não deve ser tratado como religião no fisiculturismo.

Na entrevista "Depois de 35 anos no fisiculturismo, descobri que NÃO precisava de carboidrato para ganhar músculos", do Modo Primal Podcast, Daniel Montalvão coloca em discussão uma das crenças mais resistentes da musculação: a ideia de que carboidrato alto, muitas refeições, marmita o dia inteiro e carga agressiva de comida são obrigatórios para construir ou manter um físico competitivo.

A história é interessante porque não vem de alguém olhando o fisiculturismo de fora. Vem de um atleta, treinador e promotor de evento que começou a competir em 1991, passou por décadas de frango, batata, off-season, pré-contest, finalizações e estratégias tradicionais, e só depois de muito tempo resolveu testar outro caminho.

O dogma começa cedo

A primeira preparação de Daniel, aos 18 anos, seguiu a cartilha rudimentar da época: frango cozido sem sal e batata inglesa cozida sem sal. A batata-doce era vista com desconfiança porque era "doce". Esse detalhe parece quase engraçado hoje, mas mostra como o fisiculturismo sempre misturou disciplina extrema com certezas frágeis.

Ele subiu naquele primeiro palco em 1991, quando praticamente não havia informação disponível fora da academia. Treinava desde os 13 anos e já tinha absorvido de um instrutor sem formação formal, mas com boa experiência prática, a orientação de não exagerar na carga e priorizar contração e conexão mental com o músculo. Hoje, aos 53 anos, ele descreve o fisiculturista como alguém de resiliência fora do comum: se disserem que é preciso comer pedra com farinha para chegar na condição, ele come.

Com o tempo, a estratégia foi ficando mais sofisticada, mas a lógica continuou parecida. Para ganhar volume, comia-se muito. Para definir, cortava-se muito. Entre uma fase e outra, entravam peso corporal alto, retenção, muitas refeições por dia, marmitas, horários rígidos e a crença de que o carboidrato era o centro do processo.

No auge do off-season, ele chegou a fazer 8 refeições por dia para atingir o peso máximo antes do pré-contest. Nos últimos 10 anos, o padrão dele já tinha caído para 4 refeições diárias, e mesmo assim o preço aparecia na rotina: dirigindo o motorhome em que mora com a esposa, bastava uma hora ao volante depois de comer para bater o sono e precisar parar.

O ponto de virada não é negar que isso funciona. Funciona. Atletas cresceram, secaram e venceram campeonatos usando carboidrato. A pergunta mais útil é outra: quanto desse sofrimento é realmente necessário?

Funcionar não significa ser obrigatório

Uma das ideias mais fortes da trajetória de Daniel é separar resultado de necessidade. Um método pode produzir shape e, mesmo assim, ser trabalhoso demais, arriscado demais ou simplesmente desnecessário para certo atleta.

Comer oito vezes por dia pode funcionar para alguém que precisa bater calorias e tolera bem a rotina. Mas isso não transforma oito refeições em regra biológica. Fazer uma carga de carboidratos antes do palco pode melhorar volume em determinados contextos. Mas isso não significa que todo atleta precise se esvaziar, se encher e aceitar uma gangorra corporal agressiva como preço obrigatório.

O que o incomodava não era o esforço, e sim a interrupção. Parar o atendimento a um cliente 8 vezes ao dia para comer, carregar marmita e planejar a próxima refeição antes de terminar a atual custa tempo de trabalho. Ele reconhece que continua vendo atletas fazendo exatamente isso e admite a dificuldade de discutir o assunto: o método também entrega resultado, e por isso quase ninguém aceita chamá-lo de desnecessário.

Essa distinção muda o raciocínio. A pergunta deixa de ser "carboidrato presta ou não presta?" e vira "para quem, em que fase, com qual objetivo, com qual saúde metabólica e com qual custo?"

A experiência carnívora entrou como teste

Daniel não começou direto com uma dieta carnívora estrita. Primeiro retirou grãos, arroz, feijão e farináceos. Manteve carnes, ovos, legumes, frutas e whey protein. Depois percebeu que continuava com fome, vontade de doce e necessidade psicológica de alguns alimentos.

Essa primeira fase começou em janeiro de 2026 e foi tratada como adaptação. O whey era o vício mais antigo da lista: ele passou mais de 30 anos sem ficar um único dia sem tomar, batido à tarde com leite, fruta e pasta de amendoim, e ainda por cima tinha loja de suplemento, ou seja, acesso ilimitado. Nem essa retirada resolveu a fome, e foi aí que ele concluiu que precisava cortar também os carboidratos considerados bons, raízes e frutas incluídas, para interromper de vez a entrada frequente de glicose.

Não era a primeira tentativa. Em 2016, quando disputou o campeonato mundial master acima de 40 anos realizado no Brasil, um treinador holandês já tinha levado ele para uma dieta cetogênica, com reposição de carboidrato a cada 3 ou 4 dias. Funcionou, mas gerou compulsividade: ele comia até quase passar mal no dia da reposição e acordava no dia seguinte querendo repetir. O gatilho para tentar de novo, uma década depois, foi assistir a uma entrevista do triatleta brasileiro Alessandro Medeiros, que aos 64 anos completa provas após 72 horas de jejum comendo apenas carne, água, gordura e sal.

O passo seguinte foi mais radical. Saíram frutas, raízes, whey, leite, laticínios, adoçantes, refrigerante zero, goma, gelatina, creatina e BCAA. Ficaram basicamente carne, ovos, gordura, água e sal, com algumas exceções pontuais como coco e castanhas. A ideia era observar o corpo sem ruído alimentar, sem sabor doce recorrente e sem entrada frequente de glicose.

A fase estrita começou em 28 de abril de 2026, por sugestão da esposa, Patrícia, com meta de 100 dias. Na data da entrevista corriam cerca de 70 dias sem nenhuma exceção. As únicas gorduras não animais admitidas foram a massa do coco e castanhas de caju e do Pará. A creatina saiu mesmo com patrocínio de uma farmácia de manipulação, pelo argumento de que ele já come no mínimo 1 kg de carne por dia, fonte natural do composto, e queria sentir o efeito sem ela. Ele também descreve ter inserido bastante gordura de propósito, vencendo a própria aritmética calórica que assombra fisiculturista: 1 g de gordura tem 9 calorias contra 4 calorias de 1 g de carboidrato, e chegar a 70% das calorias vindas de gordura parecia garantia de engordar.

Esse tipo de teste exige uma observação importante. Dieta carnívora não é atalho recreativo, nem fantasia de internet para copiar de segunda-feira. É uma estratégia restritiva. Pode funcionar para algumas pessoas, mas exige adaptação, atenção a sintomas, eletrólitos, exames, histórico clínico e acompanhamento quando houver doença, uso de medicamentos ou risco metabólico.

Carboidrato não é essencial no mesmo sentido que proteína

A frase "não precisava de carboidrato para ganhar músculos" incomoda porque bate de frente com décadas de cultura marombeira. Mas ela precisa ser entendida com precisão. O corpo precisa de energia. Também precisa de aminoácidos, treino resistido, recuperação e sinalização adequada para construir tecido muscular. O carboidrato pode ajudar muito no desempenho e na adesão, mas não ocupa o mesmo lugar fisiológico da proteína.

A posição da International Society of Sports Nutrition sobre proteína e exercício reforça a importância de ingestão proteica adequada para adaptação ao treino, hipertrofia e recuperação. Já a posição da mesma sociedade sobre dietas cetogênicas mostra que estratégias muito baixas em carboidrato podem ser usadas em alguns cenários, especialmente quando há controle energético e boa ingestão de proteína, mas não devem ser vendidas como superiores para todo objetivo esportivo.

Em outras palavras: carboidrato pode ser ferramenta. Não precisa virar religião. Para alguns treinos, atletas e fases, ele ajuda desempenho, volume de treino, prazer alimentar e recuperação. Para outros, reduzir carboidrato melhora saciedade, controle de fome, estabilidade de energia e facilidade de manter dieta. O erro é transformar uma ferramenta em mandamento universal.

O corpo precisa passar pela adaptação

A retirada brusca de carboidrato costuma cobrar preço nos primeiros dias. Dor de cabeça, queda de rendimento, irritação, fome psicológica, vontade de doce e sensação de fraqueza podem aparecer. Muitas vezes, parte do problema não é ausência mágica de carboidrato, mas adaptação incompleta, sódio baixo, hidratação mal conduzida, gordura insuficiente ou expectativa errada.

A experiência de Daniel destaca um ponto que muitos praticantes ignoram: não basta cortar arroz e batata. Se a pessoa tira carboidrato, mantém medo de gordura, restringe sal e continua tentando treinar como antes, a chance de se sentir destruída aumenta. Uma dieta muito baixa em carboidrato depende de outra lógica energética.

Ele fala disso comparando as duas próprias tentativas. Em 2016 sentiu perda de força, e atribui isso à falta de gordura e de minerais, não à ausência de carboidrato. Existe registro daquela fase: numa entrevista gravada no mundial, o rosto dele parecia, nas palavras dele, uma caveira, porque tinha zerado carboidrato sem repor sal nem gordura. Na tentativa atual, relata o oposto, aumento de força e recuperação mais rápida. O intervalo entre treinos do mesmo grupo caiu de cerca de 4 dias para 2. A rotina virou 1 hora de musculação mais cardíaco diário, e ele descreve fazer hoje puxador e desenvolvimento por trás, exercícios que evitava havia mais de 10 anos por dor.

As dores articulares, aliás, foram um dos motivos da busca. Uma lesão no ombro direito apareceu na ressonância com indicação cirúrgica e o obrigou a 3 meses sem treinar, a primeira parada em mais de 3 décadas, com quadril e joelho doendo junto. Ele também usa hidrogênio molecular, que ajudou sem resolver. E faz a ressalva honesta: começou a desinflamar em janeiro, são poucos meses contra mais de 5 décadas de inflamação, então não está 100%.

Por isso, o teste sério não é "fiquei três dias sem carboidrato e não gostei". O teste sério envolve tempo, ajuste de eletrólitos, ingestão suficiente de proteína e gordura, treino compatível, sono e avaliação honesta de sinais corporais.

Menos refeições pode significar mais liberdade

Um dos ganhos práticos mais relevantes foi sair da prisão das refeições constantes. Para quem já viveu carregando marmita, parando trabalho para comer, pesando alimento o dia inteiro e pensando na próxima refeição antes de terminar a atual, a saciedade muda tudo.

Quando a dieta deixa de gerar fome repetida, a vida fica mais simples. Uma ou duas refeições podem ser suficientes para algumas pessoas. Viagem, trabalho, rotina em motorhome, mercado e preparação de comida deixam de ser uma operação diária tão pesada.

No caso dele isso virou número. O casal tem residência fixa em São José do Rio Preto, sede do evento que promove, mas roda o país em um microônibus adaptado, sem espaço para estocar comida. A compra passou a ser açougue, limão e produto de limpeza, no máximo R$ 200 a cada 3 dias. Ele contesta a ideia de que dieta carnívora é cara e diz que, na ponta do lápis, sai mais barata do que a rotina anterior, mesmo comprando cortes como contrafilé.

A estabilidade de peso é o dado que mais impressiona ele. Ectomorfo, quando comia carboidrato bastava uma noite mal dormida ou uma refeição pulada para o peso cair 2 kg. Agora relata passar 24 horas em jejum sem mudança de peso, energia, força ou densidade. Do lado digestivo, descreve ficar de domingo a quarta-feira sem evacuar, comendo bastante gordura, e sem ressecamento quando acontece.

Isso não quer dizer que todo fisiculturista deva comer poucas vezes. Algumas pessoas rendem melhor com mais refeições. Outras precisam distribuir proteína. Outras têm desconforto digestivo com refeições grandes. A lição é que frequência alimentar deve servir ao corpo e à rotina, não ao medo de "catabolizar" a cada três horas.

A finalização é onde muita gente se machuca

A parte mais séria da história não é o carboidrato em si. É a cultura de levar o corpo ao limite para parecer melhor por algumas horas. Super-hidratação, retirada agressiva de água, restrição de sal, diuréticos, termogênicos e aceleradores metabólicos podem transformar uma preparação em risco real.

Ele descreve o protocolo clássico com detalhe. A super-hidratação começava no domingo anterior ao sábado de competição, com até 10 L de água por dia, para depois ir cortando. Nos 3 dias finais, os atletas comem tilápia e peito de frango com muita água e nada de sal. Cerca de 24 horas antes de subir ao palco entra a carga de carboidrato, e aí vale tudo: bala, sorvete, arroz branco, uva. O problema, segundo ele, é que nenhum manual de finalização mandava aumentar o sal, porque o meio associa sal a pressão alta e retenção. Resultado: o atleta bebe muito, elimina muito e perde minerais junto, chegando fraco.

Na preparação atual ele passou a beber água normal com sal e comia torresmo e panceta na semana da competição. E é categórico sobre o que de fato mata no esporte: para quem olha de fora, a culpa é da testosterona, mas o risco maior está nos diuréticos usados na reta final, nos termogênicos e nos aceleradores metabólicos.

Daniel defende que, ao não passar por um ciclo extremo de carboidrato, água e sal, conseguiu chegar mais seco sem precisar da mesma agressividade de finalização. Essa experiência individual não prova que todos terão o mesmo resultado, mas aponta uma reflexão importante: quanto mais instável é a preparação, maior a tentação de corrigir tudo no fim com medidas perigosas.

O raciocínio dele é simples: não precisa encher porque não esvaziou. Como não retirou gordura nem manipulou água, diz ter secado mantendo densidade e não vê sentido em comer carboidrato para inchar uma barriga que precisa estar chapada. Sem água retida no subcutâneo, também não precisaria de diurético nem correria risco de cãibra no palco.

O contraste com o passado é o que dá peso ao argumento. Depois de competir, o ritual antigo era pizza e sorvete na mesma noite, e na terça-feira seguinte ele estava com 10 kg a mais de água. No Campeonato Brasileiro de 2012, em Natal, comeu tanto e hidratou tão pouco que, sentado na praia no dia seguinte, olhou para o próprio pé e o encontrou inchado.

O fisiculturismo competitivo já é uma prática de alto desgaste. Quanto mais a preparação depende de desidratar, manipular eletrólitos e usar recursos farmacológicos de última hora, maior deve ser o cuidado. Saúde não pode ser tratada como detalhe depois que o troféu passa.

Menos esteroide também entra na conta

Outro ponto forte é a ideia de "menos é mais". Daniel diferencia uso competitivo de hormônios e otimização hormonal, reconhece que já usou mais do que precisava no passado e afirma que hoje usa muito menos do que em fases antigas.

Ele quantifica: usa hoje cerca de 1 quarto do que usava na melhor fase competitiva, e pretende manter testosterona em regime de otimização pelo resto da vida, o mesmo que o pai, de 85 anos, faz. A crítica dele à conduta médica corrente é direta: considera que um homem com testosterona total abaixo de 600 está mal e cita o caso comum do rapaz de 30 anos que faz checkup, aparece com 350 e ouve que está normal.

O contraponto interessante vem de um atleta que ele prepara sem nenhuma substância, João Regini, que compete em categoria natural com exame antidoping e faz preparação carnívora. Segundo Daniel, a testosterona do rapaz subiu sem uso de nada, e os exames vieram com colesterol total acima de 700, LDL acima de 400, HDL 101, triglicerídeos abaixo de 100, insulina 5 e hemoglobina glicada 5,1, com ferritina baixa. Ele mesmo reconhece o problema prático disso: levado a um consultório comum, esse exame recebe estatina imediata. Vale registrar que colesterol total e LDL nessa faixa não são achado banal, e a interpretação de que "está tudo redondo" é dele, não um consenso, o que reforça a necessidade de acompanhamento médico de verdade em quem adota a estratégia.

Esse trecho é importante porque desmonta uma fantasia comum. Não existe dieta capaz de tornar esteroides irrelevantes para quem está no fisiculturismo competitivo hormonizado. Também não existe hormônio capaz de corrigir dieta ruim, sono ruim, compulsão alimentar e preparação mal planejada sem custo.

O raciocínio mais maduro é integrar as variáveis. Se alimentação, saciedade, treino, recuperação, exames e rotina melhoram, talvez a pessoa dependa menos de extremos. Isso vale para comida, para cardio, para manipulação de água e para farmacologia.

Essa preocupação aparece também no evento que ele promove com a esposa, o Montalvão Classic, que chegou à oitava edição em 2025 com 84 categorias. Foi o segundo campeonato do país a adotar categorias naturais com exame antidoping, tem categoria teen a partir dos 15 anos e apresentação infantil sem competição. Patrícia é explícita sobre o motivo: eles já pensaram em desistir de organizar, porque fica difícil ver sair dali atleta que adoece, desenvolve compulsão ou depressão, e pior ainda quando o esporte mata.

Experiência pessoal não é diretriz para todo mundo

A trajetória de Daniel tem força justamente por ser uma experiência longa, vivida no corpo e dentro do esporte. Mas experiência pessoal não substitui ciência, nem consulta, nem individualização. Ela serve como provocação inteligente contra dogmas.

Ele próprio resume o limite numa frase que criou: a dieta carnívora é para todos, mas nem todos são para ela. E reconhece o próprio vício em questionar consenso, dizendo que quando vê todo mundo fazendo a mesma coisa desconfia. É uma postura útil para furar dogma e perigosa quando vira regra, porque a mesma lógica que derruba a obrigatoriedade do carboidrato pode ser usada para descartar orientação médica pertinente.

Meta-análise publicada em 2024 sobre dieta cetogênica e desempenho de força em homens e mulheres treinados sugere que dietas cetogênicas não necessariamente prejudicam força quando bem conduzidas, embora as respostas dependam do contexto. A posição da ISSN sobre dietas cetogênicas também reforça que os efeitos variam conforme adesão, proteína, calorias, modalidade e período de adaptação.

Então a conclusão honesta não é "todo fisiculturista deve virar carnívoro". A conclusão é melhor: carboidrato não é um passaporte obrigatório para hipertrofia, e muitas práticas tradicionais do fisiculturismo merecem ser questionadas.

O papel da mente

A mudança alimentar também aparece como mudança mental. Cortar doces, whey saborizado, refrigerante zero, gelatina, goma e outros estímulos palatáveis não mexe só com glicose. Mexe com hábito, recompensa, ansiedade, socialização e identidade.

Por isso, a frase "tudo começa na mente" faz sentido nesse contexto. Muita gente já sabe o básico: comer melhor, treinar, dormir, reduzir exageros, organizar rotina. O problema é sustentar. Uma estratégia alimentar só vira estilo de vida quando deixa de depender de motivação diária e passa a fazer sentido para a pessoa.

Ao mesmo tempo, radicalismo cego pode virar outro problema. Se a pessoa começa a adoecer mentalmente por medo de qualquer alimento fora do plano, a dieta deixou de ser ferramenta e virou prisão. O equilíbrio está em testar, observar, aprender e ajustar sem transformar cada escolha alimentar em drama moral.

O próprio Daniel não trata os 100 dias como destino final. Planeja testar frutas depois do prazo, cogita abrir um dia pontual para carboidrato de forma consciente e admite que pode voltar a tomar uma cerveja em alguma ocasião, coisa que fazia toda semana antes. Ele também descreve como lida com a pressão social sem virar chato: numa visita em que a mesa estava posta com pão, café, leite e doce de leite, explicou que estava em uma estratégia por tempo determinado e que faria exames ao fim, e ninguém levou a recusa como desfeita. Prefere ser chamado de mentor a coach, justamente porque considera que o trabalho começa na cabeça: quem procura ajuda quase sempre já sabe o que fazer e trava na constância.

O que praticantes comuns podem aprender

A primeira lição é abandonar o medo automático de ficar sem comer por algumas horas. Um corpo bem nutrido, com proteína suficiente e rotina organizada, não perde músculo porque atrasou uma refeição.

A segunda é olhar para a fome. Se a dieta exige força de vontade o dia inteiro, talvez falte saciedade. Em algumas pessoas, aumentar proteína, trocar ultraprocessados por comida de verdade, reduzir açúcar líquido e ajustar gordura já muda a relação com comida sem precisar copiar uma dieta carnívora.

A terceira é separar preparação competitiva de saúde. Estratégias de palco podem ser úteis para atleta competitivo, mas não devem ser imitadas por quem só quer melhorar o corpo, viver melhor e treinar com constância.

Vale olhar também para detalhes pequenos que ele ajustou por observação, não por dogma. Percebeu que o café em jejum era agressivo para o intestino e que a cafeína atrapalhava o sono, então passou a pagar o dobro pelo descafeinado, com óleo de coco. Hoje descreve acordar às 4h45, treinar às 6h e atravessar o dia sem o sono pós-refeição que o obrigava a parar o veículo. Nada disso depende de dieta carnívora, depende de reparar no que o próprio corpo devolve.

A quarta é questionar tradições. Arroz, batata, aveia, frango e whey podem funcionar. Carne, ovos, gordura e sal também podem funcionar para algumas pessoas. O corpo não respeita ideologia alimentar. Ele responde a energia, proteína, treino, sono, adesão, saúde metabólica e tempo.

Conclusão

A história de Daniel Montalvão é valiosa porque junta experiência de palco, maturidade e disposição para abandonar certezas antigas. Depois de décadas repetindo o modelo clássico do fisiculturismo, ele encontrou em uma estratégia cetogênica/carnívora uma forma de reduzir fome, simplificar rotina, manter densidade, melhorar recuperação e questionar a dependência psicológica do carboidrato.

Na entrevista, o teste ainda estava em aberto. O casal tinha rodado mais de 1.500 km até Balneário Camboriú para competir dias depois, ele em duas categorias, a de acima de 50 anos e a imediatamente mais nova, ela na biquíni. Patrícia já havia competido pela primeira vez em 21 de março de 2026, preparada em dieta cetogênica, em 4 categorias, vencendo 3 e ficando em segundo na outra, com finalização concluída em 3 semanas. Ambos sabiam que a maior parte das pessoas ali não acreditava no resultado que apareceria no palco, e diziam estar em paz com isso.

Isso não transforma a dieta carnívora em solução universal. Transforma a experiência em um lembrete poderoso: o fisiculturismo precisa de menos dogma e mais observação. Carboidrato pode ser útil. Pode até ser excelente. Mas não precisa ser tratado como obrigatório para todo físico, toda fase e toda pessoa. A melhor dieta é aquela que entrega resultado, saúde, adesão e liberdade suficiente para continuar.

FAQ

Daniel Montalvão defende que ninguém precisa de carboidrato?

Não. A ideia central é que carboidrato não deve ser tratado como obrigatório para todos os fisiculturistas. A experiência dele mostra que é possível manter desempenho e físico com outra estratégia, mas isso não elimina a individualidade.

Dá para ganhar músculo sem carboidrato?

Pode ser possível, desde que haja treino resistido adequado, proteína suficiente, energia total compatível, recuperação e adaptação à dieta. Carboidrato ajuda muitos atletas, mas não é o único caminho para hipertrofia.

Dieta carnívora é indicada para qualquer pessoa?

Não. É uma estratégia restritiva e deve ser avaliada com cuidado, especialmente em pessoas com doenças, uso de medicamentos, histórico renal, diabetes, gestação, distúrbios alimentares ou alterações importantes em exames.

Por que a fase de adaptação pode ser difícil?

Porque o corpo sai de uma rotina baseada em carboidrato frequente e precisa ajustar energia, eletrólitos, hidratação, treino e apetite. Nos primeiros dias, algumas pessoas sentem queda de rendimento, dor de cabeça ou vontade intensa de carboidrato.

O maior risco no fisiculturismo é o carboidrato?

Não. O maior risco costuma aparecer na soma de extremos: desidratação, manipulação agressiva de sal e água, diuréticos, termogênicos, uso farmacológico sem controle, compulsão alimentar e pressão competitiva.

Quem treina por estética precisa fazer dieta de atleta?

Não. A maioria das pessoas melhora muito com treino consistente, proteína suficiente, comida de verdade, sono adequado e redução de ultraprocessados. Estratégias de palco são específicas e não devem virar rotina de saúde.

O que Daniel Montalvão comia exatamente nos 100 dias?

Carne, ovos, gordura animal, água e sal, com exceção pontual de massa de coco e castanhas de caju e do Pará. Saíram grãos, frutas, raízes, laticínios, whey, adoçantes, refrigerante zero, gelatina, creatina e BCAA. Ele relata comer no mínimo 1 kg de carne por dia.

Como é a finalização tradicional que ele critica?

Super-hidratação com até 10 L de água por dia começando quase uma semana antes, retirada progressiva de água, 3 dias finais de tilápia e frango sem sal e uma carga de carboidrato cerca de 24 horas antes do palco. Ele afirma que o risco maior no esporte vem dos diuréticos, termogênicos e aceleradores metabólicos usados nessa fase.

Ele parou de usar hormônios?

Não. Ele separa ciclo para competir de otimização hormonal e diz usar hoje cerca de 1 quarto do que usava na melhor fase competitiva, com intenção de manter testosterona em dose de otimização por toda a vida.

Referências

  1. MODO PRIMAL PODCAST. Depois de 35 anos no fisiculturismo, descobri que NÃO precisava de carboidrato para ganhar músculos. [S. l.], 13 jul. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=dPS6DDm_kcQ. Acesso em: 2 ago. 2026.
  2. BURKE, Louise M. et al. International society of sports nutrition position stand: ketogenic diets. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2024. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38934469/. Acesso em: 22 jul. 2026.
  3. VARGAS-MOLINA, Sergio et al. Effects of the Ketogenic Diet on Strength Performance in Trained Men and Women: A Systematic Review and Meta-Analysis. Nutrients, 2024. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39064644/. Acesso em: 22 jul. 2026.
  4. JÄGER, Ralf et al. International Society of Sports Nutrition Position Stand: protein and exercise. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2017. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28642676/. Acesso em: 22 jul. 2026.

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