Patrick tinha 26 anos e um físico enorme quando o coração dele parou. Foram 70 minutos de parada cardíaca até a equipe médica fazer o coração voltar a bater. Ele sobreviveu, mas com uma lesão grave no cérebro. O caso de parada cardíaca em fisiculturista viralizou fora do meio do fisiculturismo, mas quase não foi noticiado, e o alerta que ele deixa vale para quem usa anabolizante e ainda se sente bem.
A história foi contada pela noiva dele num TikTok que passou de 71,5 milhões de visualizações, em publicações que acabam servindo de alerta, e analisada por Derek, do canal More Plates More Dates, em "His Heart Stopped Beating At 26 Years Old". A análise faz uma ressalva: não dá para afirmar que a parada seria evitável. A causa, os exames e o que Patrick usava nunca foram divulgados.
O caso de Patrick: 70 minutos de parada aos 26 anos
Dois meses antes da parada, Patrick aparecia muito musculoso em imagens publicadas pela noiva. Um mês antes, ela fez o bolo do aniversário de 26 anos dele. O casamento, marcado para 2020, tinha sido adiado para junho de 2021, e a parada cardíaca veio antes disso.
Depois que o coração voltou, ele ficou em coma. Segundo a noiva, os médicos disseram que ele nunca acordaria e chegaram a declarar morte cerebral. Patrick acordou, passou por reabilitação e voltou para casa depois de 5 meses, bem mais magro. A noiva virou cuidadora dele em tempo integral.
Nos comentários, muita gente culpou os anabolizantes, e houve quem dissesse que ele admitiu o uso no Instagram, em publicações em outra língua que nunca foram conferidas. Apesar do alcance, o caso rendeu só duas matérias na imprensa.
Morte cerebral ou lesão grave? O que os 70 minutos significam
Morte cerebral, ou morte encefálica, é a perda completa e irreversível das funções do cérebro. Ela é confirmada por um protocolo, com exame neurológico e teste de apneia, que verifica se a pessoa respira sozinha. Pela diretriz americana de 2023, essa determinação equivale à morte da pessoa. Quem acorda teve outra coisa: uma lesão cerebral grave, com um prognóstico que a equipe considerava muito ruim.
Setenta minutos é muito tempo. Num registro japonês com 17.238 adultos que tiveram o coração de volta antes de chegar ao hospital, quanto mais longa a reanimação, pior ficou o cérebro um mês depois. Mais de 99% dos que se recuperaram bem tiveram o coração de volta com até 35 minutos de reanimação, ou até 42 quando o coração estava em assistolia, parado sem nenhuma atividade elétrica.
Durante a massagem cardíaca, algum sangue circula, então 70 minutos de parada não são 70 minutos sem sangue no cérebro. Conta quando a massagem começou e como foi feita, e nada disso foi informado. A diretriz de 2025 da American Heart Association pede que o prognóstico do cérebro saia de vários exames combinados, feitos no momento certo.
"Onde estão os mortos?": o risco que aparece tarde
Entre usuários, circula a pergunta "onde estão os mortos?", como prova de que anabolizante é seguro. Outro argumento comum é que ninguém tem overdose de anabolizante, enquanto estimulante ou paracetamol podem matar de uma vez. No efeito imediato, a comparação procede. O problema dos anabolizantes é o dano lento, que se acumula por anos, sobretudo no coração, e que também pode atingir rim e fígado.
Muitas mortes passam sem registro, porque atingem atletas pouco conhecidos. Na Dinamarca, 1.189 homens pegos no antidoping de academias foram comparados com 59.450 homens da população por cerca de 11 anos, e o risco de morte deles foi 2,81 vezes maior. Num levantamento com 20.286 atletas de competições da IFBB, houve 46 mortes súbitas de causa cardíaca, e as autópsias disponíveis mostraram coração aumentado. Os motivos e os casos estão em por que fisiculturistas morrem jovens e em anabolizantes e mortes no fisiculturismo.
Há quem diga que os melhores fisiculturistas chegam ao topo porque respondem mais às drogas e também porque as toleram melhor. É uma hipótese sem medida. O que se mediu vai no sentido contrário de qualquer proteção: no levantamento da IFBB, os profissionais tiveram 5,23 vezes o risco de morte súbita cardíaca dos amadores. Para quem tolera menos, sobram as complicações graves em idade precoce, longe dos holofotes.
Pelo tamanho, há quem especule que Patrick estivesse entre os que mais forçam, mas nada do que ele usava foi divulgado. Quando Dallas McCarver morreu, ainda jovem, muita gente atribuiu a morte às doses, ao tamanho e ao provável uso de GH. Casos como o de Patrick lembram que o risco vai além dos nomes famosos.
Como o anabolizante pode levar o coração à parada
Dose alta de androgênio tenderia a deixar o corpo em modo de luta ou fuga permanente. Isso tem algum apoio: num estudo do InCor com 12 usuários e 9 não usuários, os usuários tinham mais atividade dos nervos que aceleram o corpo, pressão de 131/74 contra 120/68 e 74 batimentos por minuto contra 68.
Acne e ginecomastia são os efeitos que todo mundo vê. Os perigosos são silenciosos: pressão alta por muito tempo, rim sob desgaste e ventrículo esquerdo engrossado (a câmara que bombeia o sangue para o corpo). No fim, pode vir um coração aumentado e fraco, até uma parada que parece vir do nada. Na Dinamarca, os usuários tiveram risco quase 9 vezes maior de cardiomiopatia, a doença do músculo do coração, além de mais infarto e arritmia.
Num estudo com 140 homens que treinavam havia anos, a força de bombeamento do coração, medida pela fração de ejeção, foi de 52% nos usuários e de 63% nos que nunca usaram, e caiu para 49% nos que estavam em ciclo. Os usuários também tinham mais placa nas artérias do coração, e quanto mais tempo de uso, mais placa. Esses estudos comparam grupos e mostram associação forte, sem provar a causa de cada caso. Mais detalhes estão em anabolizante faz mal ao coração.
No rim, a evidência é mais fraca: há séries de casos de lesão grave em fisiculturistas com uso longo, sem estudo de boa qualidade.
Para o coração, tamanho extremo, comida o tempo todo e, possivelmente, GH e insulina também entrariam na conta, mas isso nunca foi medido.
Ter 21 ou 22 anos e passar pelos ciclos sem problema aparente não quer dizer que o corpo está ileso. A placa pode estar se formando nas artérias. O fisiculturista profissional Antoine Vaillant, então com 30 e poucos anos, contou que estava no percentil 99 de placa para a idade, com mais placa que 99 de cada 100 homens da mesma faixa. Quem descobre algo assim cedo pode ser quem tem predisposição genética e pegou o problema a tempo.
Uso menor e com pausa reduz parte do dano: pressão, colesterol e o próprio coração melhoram depois de parar. Mas nenhum uso é sem risco.
Exame de sangue não mostra o coração
Muitos usuários nem fazem exame de sangue, e até alguns atletas de nível Olympia fazem com pouca frequência. Quem faz costuma olhar hemácias e enzimas do fígado. Esses números não mostram a estrutura do coração: parede grossa, força de bombeamento baixa ou alteração do ritmo. Por isso entra a ideia de uma imagem de base, como o ecocardiograma, antes de começar.
Uma revisão de 2022 lembra que faltam provas para indicar ecocardiograma de rotina a todo usuário, mas que ele pode ser feito caso a caso. Foi esse exame que mostrou, num estudo holandês, o coração engrossando e bombeando menos durante os ciclos. Quem já tem uma arritmia de base ou uma cardiomiopatia hipertrófica, doença genética que engrossa a parede do coração, corre mais risco. A cardiomiopatia hipertrófica é a causa que o atestado de Gabriel Ganley aponta, num caso ainda sem conclusão.
Outra armadilha é parar 4 semanas no ano, ver os exames bons e voltar a um ciclo pesado. Esse retrato passageiro esconde o dano acumulado, e uma revisão de 2026 conclui que as calculadoras de risco do consultório tendem a subestimar o perigo em homens jovens que usam androgênio. Dois exames ajudam nesse retrato: a cistatina C, que mede o rim com menos interferência da massa muscular que a creatinina, e a Lp(a), marcador genético de risco das artérias.
Remédios para pressão e colesterol: o que a evidência sustenta
Para quem usa, a lição prática do caso é conhecer os remédios auxiliares além do inibidor de aromatase e do tamoxifeno. Para o colesterol, a estatina é a primeira escolha quando há indicação, e a ezetimiba é alternativa. A niacina, recurso antigo do meio, sobe o HDL sem reduzir mortes nem infartos. Para a pressão, nenhum ensaio testou remédio em usuários, mas os BRA e os inibidores da ECA podem ser preferíveis por não atrapalharem o exercício, e o betabloqueador, lembrado para acalmar o coração, não foi estudado nesse uso.
Nenhum desses remédios funciona como escudo para um ciclo. Eles tratam pressão alta e colesterol alto já medidos, e a escolha cabe a um médico que entenda o risco que você corre e não julgue o uso.
A procedência também pesa. Numa revisão de 19 estudos com 5.413 amostras do mercado ilegal, 36% eram falsificadas e outras 37% estavam abaixo do padrão. Entre as duas categorias, havia produto com outra substância, com outra quantidade ou sem princípio ativo nenhum. Por isso, quando existe, o produto de grau farmacêutico é o mais previsível.
Conclusão
A causa da parada de Patrick nunca foi divulgada. O que o caso ensina é que cada pessoa tem um limite diferente de resistência do coração e da pressão, e que o dano dos anabolizantes costuma ser silencioso. Parte do fisiculturismo já fala mais em longevidade, com imagem repetida ao longo dos anos. Na prática, para quem usa ou pensa em usar:
- levantar o histórico da família, com morte súbita ou doença do coração em parentes jovens
- fazer exames de sangue de base antes do primeiro ciclo e repetir ao longo dos anos, e discutir com o médico um ecocardiograma de base
- tratar pressão e colesterol altos quando aparecerem, sem automedicação
- diante de alguém desacordado que não respira normalmente: ligar para o SAMU (192), começar a massagem cardíaca e usar o desfibrilador assim que houver um
Perguntas frequentes
Por que atletas e fisiculturistas têm parada cardíaca?
Em geral, por uma doença do próprio coração. Entre atletas jovens dos Estados Unidos, a cardiomiopatia hipertrófica, doença genética que engrossa a parede do coração, explicou 36% das mortes de causa cardiovascular confirmada. Em fisiculturistas de competição, as autópsias de morte súbita mostram coração aumentado e paredes engrossadas.
É possível sobreviver depois de uma parada cardíaca?
Sim. Num registro japonês, 21,8% dos adultos que tiveram o coração de volta antes do hospital estavam bem do ponto de vista neurológico um mês depois. A chance cresce com massagem cardíaca imediata e desfibrilador cedo, e cai a cada minuto de reanimação.
Qual é a expectativa de vida de um fisiculturista?
Os estudos medem risco de morte, e não expectativa de vida. Na Dinamarca, usuários de anabolizantes tiveram risco de morte 2,81 vezes maior em cerca de 11 anos. Entre competidores ativos da IFBB, houve 32,8 mortes súbitas cardíacas por 100 mil atletas por ano.
Referências
- ALVES, M. J. et al. Abnormal neurovascular control in anabolic androgenic steroids users. Medicine & Science in Sports & Exercise, [S. l.], v. 42, n. 5, p. 865-871, maio 2010. DOI: 10.1249/MSS.0b013e3181c07b74. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19997008/. Acesso em: 4 nov. 2026.
- AMERICAN HEART ASSOCIATION. What is cardiac arrest? Why is it so deadly?. Dallas, 2 jan. 2025. Disponível em: https://newsroom.heart.org/news/what-is-cardiac-arrest. Acesso em: 4 nov. 2026.
- BAGGISH, A. L. et al. Cardiovascular toxicity of illicit anabolic-androgenic steroid use. Circulation, [S. l.], v. 135, n. 21, p. 1991-2002, 23 maio 2017. DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.116.026945. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28533317/. Acesso em: 4 nov. 2026.
- BOND, P.; SMIT, D. L.; DE RONDE, W. Anabolic-androgenic steroids: how do they work and what are the risks?. Frontiers in Endocrinology, [S. l.], v. 13, art. 1059473, dez. 2022. DOI: 10.3389/fendo.2022.1059473. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36644692/. Acesso em: 4 nov. 2026.
- BOND, Peter et al. Preventing Atherosclerotic Cardiovascular Disease in Young Male Androgen Abusers. Clinical Cardiology, [S. l.], v. 49, n. 2, art. e70257, fev. 2026. DOI: 10.1002/clc.70257. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41711186/. Acesso em: 4 nov. 2026.
- GOTO, Y.; FUNADA, A.; GOTO, Y. Relationship between the duration of cardiopulmonary resuscitation and favorable neurological outcomes after out-of-hospital cardiac arrest: a prospective, nationwide, population-based cohort study. Journal of the American Heart Association, [S. l.], v. 5, n. 3, art. e002819, mar. 2016. DOI: 10.1161/JAHA.115.002819. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26994129/. Acesso em: 4 nov. 2026.
- GREER, D. M. et al. Pediatric and adult brain death/death by neurologic criteria consensus guideline. Neurology, [S. l.], v. 101, n. 24, p. 1112-1132, dez. 2023. DOI: 10.1212/WNL.0000000000207740. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37821233/. Acesso em: 4 nov. 2026.
- HERLITZ, Leal C et al. Development of focal segmental glomerulosclerosis after anabolic steroid abuse. Journal of the American Society of Nephrology, [S. l.], v. 21, n. 1, p. 163-172, jan. 2010. DOI: 10.1681/ASN.2009040450. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19917783/. Acesso em: 4 nov. 2026.
- HIRSCH, K. G. et al. Part 11: post-cardiac arrest care: 2025 American Heart Association guidelines for cardiopulmonary resuscitation and emergency cardiovascular care. Circulation, [S. l.], v. 152, n. 16 suppl 2, p. S673-S718, out. 2025. DOI: 10.1161/CIR.0000000000001375. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41122894/. Acesso em: 4 nov. 2026.
- KRONENBERG, F. et al. Lipoprotein(a) in atherosclerotic cardiovascular disease and aortic stenosis: a European Atherosclerosis Society consensus statement. European Heart Journal, [S. l.], v. 43, n. 39, p. 3925-3946, out. 2022. DOI: 10.1093/eurheartj/ehac361. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36036785/. Acesso em: 4 nov. 2026.
- MAGNOLINI, R. et al. Fake anabolic androgenic steroids on the black market: a systematic review and meta-analysis on qualitative and quantitative analytical results found within the literature. BMC Public Health, [S. l.], v. 22, n. 1, art. 1371, jul. 2022. DOI: 10.1186/s12889-022-13734-4. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35842594/. Acesso em: 4 nov. 2026.
- MARON, B. J. et al. Sudden deaths in young competitive athletes: analysis of 1866 deaths in the United States, 1980-2006. Circulation, [S. l.], v. 119, n. 8, p. 1085-1092, mar. 2009. DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.108.804617. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19221222/. Acesso em: 4 nov. 2026.
- MORE PLATES MORE DATES. His Heart Stopped Beating At 26 Years Old. [S. l.], 10 mar. 2022. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NOW_zmHnPQc. Acesso em: 4 nov. 2026.
- SMIT, D. L.; BOND, P.; DE RONDE, W. Health effects of androgen abuse: a review of the HAARLEM study. Current Opinion in Endocrinology, Diabetes and Obesity, [S. l.], v. 29, n. 6, p. 560-565, 1 dez. 2022. DOI: 10.1097/MED.0000000000000759. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35938779/. Acesso em: 4 nov. 2026.
- VECCHIATO, M. et al. Mortality in male bodybuilding athletes. European Heart Journal, [S. l.], v. 46, n. 30, p. 3006-3016, 8 ago. 2025. DOI: 10.1093/eurheartj/ehaf285. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40393525/. Acesso em: 4 nov. 2026.
- WINDFELD-MATHIASEN, J. et al. Mortality among users of anabolic steroids. JAMA, [S. l.], v. 331, n. 14, p. 1229-1230, abr. 2024. DOI: 10.1001/jama.2024.3180. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38483396/. Acesso em: 4 nov. 2026.
- WINDFELD-MATHIASEN, Josefine et al. Cardiovascular Disease in Anabolic Androgenic Steroid Users. Circulation, [S. l.], v. 151, n. 12, p. 828-834, mar. 2025. DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.124.071117. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39945117/. Acesso em: 4 nov. 2026.
Comentários Recomendados
Crie uma conta ou entre para comentar