Perder 12 kg não significa eliminar 12 kg de gordura. A balança soma gordura, água, glicogênio, conteúdo intestinal, órgãos e massa muscular no mesmo número. Em “Perder gordura sem perder músculo”, o canal FalaLu! parte desse problema para analisar uma nova geração de medicamentos que tenta tornar o emagrecimento mais seletivo. O resultado mais chamativo veio do apitegromab: combinado à tirzepatida, ele reduziu em 54,9% a perda de massa magra em 24 semanas.
O dado é promissor, mas precisa ser lido inteiro. O estudo reuniu 102 adultos, durou seis meses e avaliou um anticorpo experimental aplicado por via intravenosa. A preservação medida por DEXA não produziu ganho adicional detectável de força ou função física. Apitegromab e bimagrumab ainda não são tratamentos disponíveis para alguém comprar e acrescentar por conta própria a uma caneta emagrecedora.
Quanto músculo pode ir embora junto com o peso
A regra de que aproximadamente um quarto do peso perdido vem de massa magra é uma referência populacional, não uma sentença individual. Revisões costumam situar essa fração entre 25% e 40%, com grande variação conforme idade, sexo, quantidade de gordura inicial, velocidade do emagrecimento, proteína ingerida e treinamento.
Uma meta-análise de 2026 reuniu 20 ensaios clínicos e 15.782 participantes. A parcela da perda de peso atribuída à massa magra foi de 35,2% com semaglutida, 25,4% com tirzepatida e 26,8% com liraglutida. Intervenções de estilo de vida ficaram em 26,2%. Quando o programa incluía treinamento resistido, a média caiu para 17,5%.
| Estratégia analisada | Parcela média da perda de peso atribuída à massa magra |
|---|---|
| Semaglutida | 35,2% |
| Tirzepatida | 25,4% |
| Liraglutida | 26,8% |
| Mudança de estilo de vida | 26,2% |
| Estilo de vida com treino resistido | 17,5% |
Esses percentuais não permitem prever o resultado de uma pessoa específica. Também não significam que toda “massa magra” perdida seja músculo contrátil. A DEXA inclui água e outros tecidos livres de gordura nessa medida.
Retatrutida chegou a 24,2% de perda de peso em 48 semanas
A retatrutida ajuda a entender por que preservar tecido magro virou uma prioridade. No ensaio de fase 2 com 338 adultos, a dose de 12 mg uma vez por semana produziu redução média de 24,2% do peso em 48 semanas, contra 2,1% com placebo. Em uma pessoa de 110 kg, a mesma proporção representaria 26,6 kg. Esse cálculo apenas ilustra a escala e não prevê a resposta individual.
O estudo mediu perda total de peso, não autoriza presumir que exatamente um quarto dos 26,6 kg seria músculo. Quanto maior a redução absoluta, porém, maior a importância de acompanhar composição corporal, capacidade funcional, ingestão proteica e desempenho no treino.
Por que a miostatina virou o alvo
A miostatina funciona como um freio biológico para o crescimento muscular. Em 1997, pesquisadores mostraram que camundongos sem o gene da miostatina desenvolviam massa muscular duas a três vezes maior do que animais normais. Em 2004, um relato no New England Journal of Medicine descreveu uma criança com mutação de perda de função nesse gene, hipertrofia acentuada e força incomum.
O acompanhamento não havia identificado problemas de saúde aos 4,5 anos, mas os próprios autores alertaram que a criança era jovem demais para excluir consequências futuras. Essa observação importa: bloquear um regulador humano não pode ser tratado como se fosse apenas retirar um limitador indesejado.
Os medicamentos experimentais seguem caminhos diferentes. O apitegromab inibe seletivamente a ativação da miostatina. O bimagrumab bloqueia os receptores de activina tipo II, interferindo na sinalização de miostatina e de outras activinas. A segunda ação é mais ampla e ajuda a explicar por que os efeitos sobre gordura, músculo e eventos adversos não são iguais.
Bimagrumab perdeu 20,5% de gordura e acrescentou 3,6% de massa magra
Em um ensaio anterior com adultos que tinham obesidade e diabetes tipo 2, o bimagrumab foi administrado por via intravenosa a cada quatro semanas durante 48 semanas. A massa de gordura caiu 20,5%, equivalentes a 7,5 kg. A massa magra aumentou 3,6%, ou 1,7 kg. O peso corporal total diminuiu 6,5%.
O ensaio BELIEVE ampliou a pergunta ao combinar bimagrumab e semaglutida. Foram 507 adultos com obesidade, sem diabetes, distribuídos em nove grupos por 48 semanas. O bimagrumab foi testado em 10 ou 30 mg por kg por via intravenosa a cada 12 semanas. A semaglutida foi usada em 1 ou 2,4 mg por semana.
| Grupo de maior dose | Mudança de peso em 48 semanas | Mudança de massa magra | Parcela da perda vinda de gordura |
|---|---|---|---|
| Bimagrumab 30 mg/kg | -9,3 kg | +1,0% a +1,1% na análise principal | 100% |
| Semaglutida 2,4 mg | -14,2 kg | -4,7% a -6,9% entre as doses | 71,1% |
| Bimagrumab 30 mg/kg + semaglutida 2,4 mg | -17,8 kg | -0,8% a -2,3% entre as combinações | 92,3% |
A combinação de maior dose não eliminou toda a perda de massa magra, mas concentrou 92,3% da redução de peso na gordura. O custo dessa intervenção também apareceu. Eventos comuns ligados ao bimagrumab incluíram espasmos musculares, diarreia e acne. Entre os grupos que receberam apenas o anticorpo, 14,0% a 21,4% interromperam o tratamento por eventos adversos.
EMBRAZE: 1,9 kg a mais de massa magra preservada
O EMBRAZE comparou 51 pessoas que receberam apitegromab com 51 que receberam placebo. Todos usaram tirzepatida, iniciada e aumentada em passos de 2,5 mg a cada quatro semanas, conforme tolerância, até o máximo de 15 mg por semana. O apitegromab foi administrado em 10 mg por kg por via intravenosa a cada quatro semanas.
| Resultado em 24 semanas | Apitegromab + tirzepatida | Placebo + tirzepatida |
|---|---|---|
| Perda total de peso | 11,2 kg | 12,5 kg |
| Perda de massa magra | 1,6 kg | 3,5 kg |
| Parcela da perda vinda de massa magra | 14,6% | 30,2% |
| Perda de gordura | 8,5 kg | 8,0 kg |
| Parcela da perda vinda de gordura | 85,3% | 69,5% |
A diferença de 1,9 kg correspondeu a 54,9% menos perda de massa magra no grupo do apitegromab. A perda total de peso foi semelhante, portanto o anticorpo alterou principalmente a composição do peso perdido. Eventos adversos ocorreram em 76% no grupo experimental e 71% no placebo. Eventos graves atingiram uma pessoa em cada grupo.
Preservar massa magra no exame não garantiu mais força
O resultado corporal não veio acompanhado de diferença relevante nos testes de função física. Força de preensão, desempenho e outras medidas funcionais permaneceram semelhantes entre os grupos após 24 semanas.
Há três explicações possíveis que não se excluem. O estudo pode ter sido curto e pequeno para detectar diferença funcional. Parte da massa preservada na DEXA pode refletir água e tecidos não contráteis. Por fim, músculo só aprende a produzir força quando recebe estímulo mecânico e prática específica. Um medicamento pode preservar tecido sem substituir treinamento.
Esse limite muda a pergunta útil. O objetivo não é apenas terminar mais pesado na coluna de massa magra. É conservar força, mobilidade, autonomia e capacidade de treinar durante e depois do emagrecimento.
O que já funciona enquanto os anticorpos continuam experimentais
Treinamento resistido continua sendo a intervenção disponível com melhor relação entre evidência, acesso e benefício funcional. Uma meta-análise de 25 ensaios clínicos mostrou que acrescentar musculação à dieta protegeu massa livre de gordura, aumentou a perda de gordura e melhorou força, mesmo sem produzir perda adicional relevante no peso total.
Na prática, a estratégia começa por pelo menos duas sessões de musculação por semana, com exercícios adaptados à capacidade e progressão registrada. O desempenho também precisa ser acompanhado. Queda contínua de carga, repetições e tolerância ao treino pode indicar déficit agressivo, recuperação insuficiente ou ingestão inadequada.
A proteína entra como matéria-prima, não como substituta do estímulo. Uma meta-análise de 47 estudos, com 3.218 adultos com sobrepeso ou obesidade, associou ingestão abaixo de 1,0 g por kg ao dia a maior risco de queda de massa muscular. Ingestões acima de 1,3 g por kg ao dia favoreceram retenção ou aumento. Para uma pessoa de 80 kg, essas referências correspondem a menos de 80 g e a mais de 104 g por dia, respectivamente.
Esses valores descrevem médias de estudos e não uma prescrição universal. Doença renal, idade, volume de treino, tamanho do déficit e tratamento medicamentoso exigem avaliação individual. Whey pode facilitar a meta, mas comida, musculação e distribuição adequada das refeições continuam sendo a base.
Produto de mercado cinza não é atalho para o EMBRAZE
Produtos anunciados na internet como YK-11, peptídeos ou bloqueadores de miostatina não são versões acessíveis do apitegromab. Não há ensaios humanos controlados que demonstrem que esses produtos preservem músculo com a eficácia e a segurança observadas no EMBRAZE. Também não existe garantia de identidade, dose, esterilidade ou ausência de contaminantes.
Apitegromab e bimagrumab são anticorpos monoclonais investigacionais estudados com dose controlada, produto rastreável e acompanhamento clínico. Comprar um frasco de mercado cinza com uma alegação parecida no rótulo não reproduz o medicamento, o protocolo nem a vigilância do ensaio.
Conclusão
O apitegromab reduziu de 3,5 para 1,6 kg a perda média de massa magra durante 24 semanas de tirzepatida. Isso equivale a 1,9 kg preservado e a uma redução relativa de 54,9%. O bimagrumab também mudou a composição da perda, fazendo com que 92,3% do peso eliminado pela combinação de maior dose com semaglutida viesse da gordura.
Os dois resultados ainda pertencem a ensaios de fase 2. Não existe aprovação para acrescentar esses anticorpos a um tratamento de emagrecimento, e massa magra preservada não se converteu automaticamente em mais força. Hoje, a conduta concreta permanece menos futurista: musculação regular, proteína suficiente, déficit compatível com a recuperação e acompanhamento do desempenho, da composição corporal e da saúde.
FAQ
É possível emagrecer sem perder nenhum músculo?
Não há garantia. A perda de peso costuma incluir algum tecido livre de gordura. Musculação, proteína suficiente, déficit bem dimensionado e acompanhamento ajudam a reduzir essa parcela.
O que significa o apitegromab ter preservado 55%?
O grupo placebo perdeu 3,5 kg de massa magra e o grupo apitegromab perdeu 1,6 kg. A diferença de 1,9 kg representa 54,9% menos perda relativa, não preservação de 55% de toda a massa muscular do corpo.
Apitegromab já pode ser comprado?
Não para essa finalidade. É um anticorpo monoclonal investigacional testado em fase 2, administrado por via intravenosa dentro de protocolo de pesquisa.
Bimagrumab fez os participantes ganharem músculo?
Em um ensaio com obesidade e diabetes tipo 2, a massa magra aumentou 3,6%. No BELIEVE, o bimagrumab isolado elevou a massa magra, enquanto as combinações reduziram fortemente a perda provocada pela semaglutida.
Preservar massa magra significa preservar força?
Não necessariamente. No EMBRAZE, a diferença na DEXA não produziu melhora adicional detectável nos testes de função física. Treinamento continua necessário para conservar desempenho.
Quanto de proteína ajuda a preservar músculo?
Em uma meta-análise de adultos com sobrepeso ou obesidade, menos de 1,0 g por kg ao dia esteve ligado a maior risco de perda muscular, enquanto mais de 1,3 g por kg ao dia favoreceu retenção. A meta individual deve considerar saúde, treino e orientação profissional.
Referências
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