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Imagem sintética e meramente ilustrativa. Não é uma foto real.

Efeitos colaterais de anabolizantes: abscesso, pânico e raiva

Uma aplicação que travou a perna, uma hora de pânico com trembolona e a raiva engolida nas brigas em casa. Veja o que os estudos dizem de cada efeito.

Os efeitos colaterais de anabolizantes quase nunca aparecem em quem exibe o resultado. Mike Israetel, fisiculturista e doutor em ciência do esporte, resolveu contar os dele em "My Darkest Steroid Experiences" ("minhas piores experiências com esteroides"), no canal Renaissance Periodization. Foram três episódios: uma aplicação no quadríceps que travou a perna por uma semana e meia, uma hora de pânico depois da primeira dose de trembolona e discussões com a esposa em que precisava ficar dois minutos calado para não dizer algo de que se arrependeria.

Ele mesmo diz que os anabolizantes funcionam e que não quer assustar ninguém. Muito do que ele conta aparece também nos estudos, mas algumas frases dele estão erradas, e a matéria mostra quais. As doses citadas vêm de um produto clandestino, sem garantia do que havia no frasco. Elas aparecem só para mostrar quanto ele usou, e não como indicação.

A primeira aplicação travou a perna por uma semana e meia

A primeira injeção da vida dele foi no quadríceps, num apartamento de um cômodo, com um amigo que o ensinou a aplicar. Na hora, nada. No dia seguinte, ao sair do carro, sentiu como se houvesse um alfinete gigante cravado na coxa. Um dia depois, a dor tomou o quadríceps inteiro e passou para o joelho. A coxa inchou e o ponto da aplicação ficou vermelho.

Por uma semana e meia, ele não conseguia dobrar a perna mais que alguns graus sem dor forte. Perdeu o treino de pernas, sentia líquido no joelho e andava de um jeito estranho. Com medo de infecção, decidiu que iria ao hospital se aparecessem linhas vermelhas saindo do local. Elas não apareceram. Quando aplicou no outro quadríceps, a mesma coisa aconteceu.

As reações seguiram por quase uma década, em quadríceps, ombros e glúteos: a cada poucas aplicações, uma ficava muito inflamada. Numa delas, no hospital, abriram a coxa e drenaram muito líquido. O exame não achou bactéria, e o diagnóstico foi abscesso estéril. Ficou a cicatriz. Ele atribui a melhora a duas trocas, a seringa de insulina, de agulha fina, e um fornecedor que considerava melhor, e a uma espécie de cansaço do corpo, que com o tempo passou a reagir menos. É observação pessoal, sem teste do produto nem comparação.

Dor depois de aplicar: o que é comum e o que é alarme

A reação no local é frequente. Num levantamento com 366 homens que injetam hormônios no Reino Unido, 42% já tinham tido vermelhidão, inchaço e dor no ponto da aplicação, e 6,8% já tinham tido abscesso ou ferida aberta. Só 17% dos que tiveram vermelhidão procuraram tratamento.

Abscesso estéril é pus sem bactéria, uma reação do corpo ao óleo, aos conservantes ou ao trauma da agulha. O infeccioso tem bactéria e pode exigir drenagem e antibiótico. Por fora, os dois se parecem. Um caso publicado descreve um homem de 26 anos com abscesso infectado na coxa depois de aplicar sem técnica estéril e dividir frascos com dois colegas. O óleo repetido também cobra: um fisiculturista que injetou óleo de gergelim por 8 anos ficou com mais de 100 cistos e perda muscular irreversível.

Esperar as linhas vermelhas, como ele fez, é arriscado. Vermelhidão que aumenta, calor, pus, febre, calafrio ou dor que piora em vez de melhorar pedem avaliação médica no mesmo dia. O caso de quem foi parar na UTI com sepse depois de aplicar estanozolol no glúteo começou como um inchaço. E um caroço duro depois da aplicação também pode ser abscesso.

"Test flu" e a tosse depois da aplicação

Ele também fala da "test flu", a "gripe da testosterona": febre, mal-estar, dor de cabeça, fraqueza, dor nas articulações e o músculo aplicado inutilizado, a ponto de um esbarrão no local doer como nada mais. Nas palavras dele, é como uma gripe sem a tosse e o espirro. O nome circula entre usuários, mas não é diagnóstico. Febre depois de uma aplicação pode ser inflamação, produto adulterado ou infecção, e chamar tudo de "gripe" atrasa o atendimento.

Já a tosse logo depois de aplicar tem um mecanismo descrito, a microembolia de óleo: gotas do veículo chegam ao pulmão. Os estudos tratam do undecanoato de testosterona, o Nebido® no Brasil. A bula americana avisa sobre vontade de tossir, falta de ar, aperto na garganta e tontura durante ou logo depois da injeção, e manda observar o paciente por 30 minutos. A frequência é baixa: menos de 0,1% das injeções, e a maioria dos casos passou em até meia hora.

Para Durateston® e trembolona, não há estudo que meça essa tosse. Os relatos de usuários existem, mas a ligação com a microembolia é uma inferência. Falta de ar que não passa, dor no peito, inchaço no rosto ou desmaio são emergência. Num caso publicado com o undecanoato, a reação grave, uma anafilaxia, veio do benzoato de benzila, um solvente usado no óleo, e não do hormônio.

Trembolona: 75 mg e uma hora de pânico

Na primeira vez com trembolona, ele ouviu de várias pessoas que 75 mg em dias alternados era dose conservadora. Um dia depois da primeira aplicação, voltando do trabalho, teve a certeza emocional de que ia morrer em segundos ou minutos, sem nenhum motivo lógico. O coração batia normal. Abriu o notebook e escreveu como se sentia. A ansiedade vinha como uma onda que o jogava contra as pedras, de novo e de novo, por uma hora.

Um amigo neurocientista sugeriu um quarto da dose. A sequência ficou assim:

EtapaDose relatadaO que ele conta
Primeira aplicação75 mgPânico de morte iminente no dia seguinte, por uma hora
Uma semana e meia18,75 mg em dias alternadosSentiu-se muito melhor e o corpo começou a mudar
Mais uma semana e meia37,5 mg em dias alternadosParou ao fim de uma fase de perda de gordura, 3 semanas no total

Daí ele tira o conselho de usar bem menos do que mandam e subir se nada acontecer. Nas vezes seguintes, começando baixo, a reação foi bem mais branda, mas ele diz que a trembolona nunca deixou de ser desagradável. Para ele, a dose que circula em fórum funciona para a média e pode ser péssima para quem está longe dela. Mesmo assim, ninguém sabe quanto havia no frasco: em amostras testadas na Austrália, metade estava subdosada, e na Suíça, 52% eram falsas. A trembolona só tem aprovação da FDA em implantes para gado de corte, e não existe dose estudada em pessoas. Há relato publicado de psicose aguda desencadeada por ela.

Como a trembolona age no cérebro está explicado na matéria sobre os efeitos psicológicos da trembolona. Há também uma ficha dela no orientador de fármacos.

Ansiedade, raiva e humor: o que os estudos mostram

Num estudo brasileiro com 103 fisiculturistas, 75 homens e 28 mulheres, com uso confirmado em laboratório, 61,2% tiveram agitação, insônia, agressividade ou depressão nos três meses anteriores. Cerca de um terço marcou ansiedade moderada a grave numa escala clínica. Quem usava mais não teve mais sintomas que quem usava menos. Por isso, ver um amigo usar sem problema não diz nada sobre como você vai reagir.

A resposta varia muito. Num ensaio com 600 mg de testosterona por semana, 84% dos homens quase não tiveram efeito psiquiátrico, 12% tiveram euforia e irritação leves e 4% tiveram um quadro marcado. Nada medido antes previa quem reagiria. Noutro ensaio com a mesma dose, a raiva não aumentou, nem pelo relato de parceiros e familiares. Esses estudos usaram testosterona pura de farmácia, e não a mistura de vários compostos clandestinos.

Entre 88 usuários comparados com 68 atletas sem uso, 23% relataram uma síndrome de humor importante ligada ao anabolizante: mania, euforia exagerada ou depressão maior. Para a ansiedade, uma revisão sistemática concluiu que o efeito é pouco claro e os estudos discordam. A depressão também pode vir depois: 29% de um grupo de ex-usuários de longo prazo tiveram depressão maior ao parar, quando a testosterona própria demora a voltar. A terapia pós-ciclo (TPC) tenta acelerar essa volta, e o que ela recupera e o que não conserta tem matéria própria.

Em 2024, dois minutos de silêncio nas discussões

A terceira história é da preparação para competir em 2024, com o que ele chama de doses pesadas e compostos fortes, sem dizer quais nem quanto. Nas discussões com a esposa, com quem diz nunca ter trocado gritos, em várias ocasiões naquele verão ele ficava calado por cerca de dois minutos depois de uma pergunta dela. Todo pensamento que surgia era hostil: um palavrão, um não a tudo, a ideia de que poderia mentir e convencê-la de qualquer coisa, a vontade de ir embora e pedir o divórcio.

Ele não dizia nada disso. Ficava quieto até achar algo que realmente pensava. Ele compara a cabeça sob doses altas a um escritor que só manda ideias ruins: a pessoa não escolhe o que pensa, só o que fala. Daí o conselho de não tratar todo impulso do momento como verdade e, na dúvida, dizer algo neutro ou ficar calado. Ele sentia ódio, raiva e vontade de derrubar o outro junto. A explicação que dá, a de que a testosterona e a trembolona agem na amígdala, uma área do cérebro ligada ao medo e à raiva, é uma hipótese dele, sem estudo que a confirme nesses sintomas.

Há estudos que apontam o risco para quem está perto. Num estudo com 23 usuários, eles relataram mais brigas, agressão verbal e violência contra a parceira durante o uso do que fora dele. Fora do uso, não diferiam de quem nunca usou. Num estudo holandês chamado HAARLEM, que acompanhou 100 homens durante um ciclo feito por conta própria, 36% tiveram agitação, e houve um caso de ideia de suicídio entre os quatro eventos graves.

Quem está ao lado percebe antes

Ele separa quem usa em grupos. Há quem realmente não sente nada e quem sofre, reduz a dose e volta, sem falar disso nas redes. Há quem sabe que está mal e não admite nem para si, e passa anos infeliz sem mudar nada. E há quem muda sem perceber: a irritação cresce tão devagar ao longo do ciclo que a pessoa passa a achar aquilo normal. Ele compara com o bêbado que garante estar ótimo. Há homens que dizem estar bem enquanto a parceira conta ter medo deles, e às vezes só reconhecem o que fizeram depois de parar.

Por isso vale ouvir quem convive. Insônia, irritação nova, ciúme, ameaça, medo constante e decisões impulsivas são sinais para reduzir a exposição e procurar avaliação. Ideia de se machucar, ameaça a outra pessoa, desconfiança sem motivo, alucinação ou agitação que não passa são emergência: SAMU 192. Até a ajuda chegar, a pessoa não deve ficar sozinha nem dirigir. O CVV atende pelo 188 para conversar, mas não substitui o pronto-socorro em risco imediato.

Exame de sangue bom não quer dizer uso seguro

Ele mesmo se vê como um caso fora da curva. Diz ter um temperamento ruim, que piora com doses altas somadas a estresse alto, e afirma que outra pessoa pode usar e nunca passar por nada do que ele contou. Para ele, os colaterais vêm num espectro, de nada perceptível a algo que muda a vida, e cada pessoa recebe uma combinação diferente: há quem tenha a "test flu" com o local da aplicação intacto, e quem tenha a cabeça afetada com exames normais.

Ele conta que os exames de sangue dele sempre foram ótimos enquanto a cabeça era um pesadelo. Hemograma, colesterol e enzimas do fígado não medem ansiedade, raiva nem risco dentro de casa. Segundo ele, quem tem sorte só vê o HDL, o colesterol bom, cair alguns pontos. No HAARLEM, todos os 100 homens tiveram ao menos um efeito negativo, e a dose e a duração do ciclo não previram quais.

Ele também diz que os anabolizantes mal fazem mal a quem usa direito. Os números da Dinamarca mostram outra coisa. Lá, 1.189 homens flagrados com anabolizante em academias foram comparados com 59.450 homens da mesma idade por cerca de 11 anos. Morreram 2,8% dos usuários, contra 1,0% dos demais. É um estudo de observação, que não separa o anabolizante de outros hábitos, mas a diferença é grande. Nesse mesmo grupo dinamarquês, infarto foi 3 vezes mais frequente e cardiomiopatia, 8,9 vezes. O que pesa no coração e na fertilidade está em efeitos colaterais dos anabolizantes no coração.

Cerca de 30% dos usuários ficam dependentes, segundo a Endocrine Society: continuam usando mesmo com efeitos ruins e têm dificuldade de parar. E a qualidade do produto é sorte: num lote apreendido na França, 80% dos anabolizantes não eram originais. No Brasil, a Polícia Federal achou 65,2% de óleos falsos. A agulha fina também não resolve a causa. Num estudo pequeno, aplicar na gordura sob a pele, em vez de no músculo, doeu menos, mas ninguém conferiu se havia menos abscesso. As medidas e o porquê de cada agulha para aplicar testosterona estão em outra matéria.

A droga de músculo sem efeito colateral ainda não existe

No fim, ele promete que inibidores de miostatina e de activina, duas vias que freiam o crescimento muscular, dariam músculo comparável ou maior que o dos anabolizantes, quase sem efeito colateral, e chegariam ao mercado até 2028. Diz ainda que, na fase 2, ninguém morreu. Por isso, aconselha quem é jovem a esperar por eles em vez de usar anabolizantes. O que ele descreve corresponde aos anticorpos trevogrumabe e garetosmabe, da Regeneron, testados no ensaio COURAGE em adultos com obesidade.

O estudo de 2025 não mostrou ganho de músculo. O ensaio teve 599 participantes em quatro grupos. Quem usou só semaglutida perdeu 3,3 kg de massa magra. Com trevogrumabe, a perda foi de 1,5 a 1,9 kg, e com os dois anticorpos juntos, 0,9 kg. Os anticorpos diminuíram a perda de músculo durante o emagrecimento. O grupo com os dois anticorpos teve mais abandonos e duas mortes, sem relação causal identificada.

Em outubro de 2026, os dados completos, apresentados em congresso e ainda sem artigo publicado, pioraram o quadro desse grupo: 14,1% tiveram efeito adverso grave, contra no máximo 4,6% nos outros, e 32,2% abandonaram por efeito colateral. A empresa desistiu do garetosmabe para obesidade e seguiu só com o trevogrumabe. Não há fase 3 nem aprovação em vista para hipertrofia. Quem decidir esperar não tem data para isso.

Conclusão

Os três episódios mostram efeitos colaterais de anabolizantes que não aparecem no espelho nem no hemograma: a perna travada, um abscesso drenado no hospital, uma hora de pânico com 75 mg de trembolona e discussões em casa em que ele precisava ficar dois minutos calado para segurar a raiva. Os estudos mostram que reação no local, agitação e problemas de humor são comuns, e que ninguém sabe de antemão quem vai tê-los.

Dizer que quase não faz mal não combina com mais mortes e mais infartos entre os usuários, e a droga de músculo sem colateral ainda não passou de preservar massa magra no emagrecimento. Se o local da aplicação esquentar e a febre vier, ou se quem mora com você disser que você mudou, a hora de parar e procurar um médico é essa.

Perguntas frequentes

É normal sentir dor depois de aplicar testosterona?

Dor leve no local é comum: 42% dos homens que injetam hormônios já tiveram vermelhidão, inchaço e dor depois de aplicar. Dor que piora, vermelhidão que cresce, calor, pus ou febre não são normais e pedem avaliação no mesmo dia, porque podem ser abscesso.

Tosse depois de aplicar testosterona é normal?

Pode acontecer, mas não é para ignorar. Com o undecanoato de testosterona, gotas de óleo chegam ao pulmão em menos de 0,1% das injeções e dão vontade de tossir, falta de ar e tontura, que costumam passar em meia hora. Para Durateston®, não há estudo que meça isso. Falta de ar que não passa ou dor no peito é emergência.

Tosse depois de aplicar trembolona: o que é?

Não há estudo sobre essa tosse. A explicação usada pelos usuários, a de óleo chegando ao pulmão, só foi medida com o undecanoato de testosterona. A trembolona para uso humano só existe no mercado clandestino, então ninguém sabe o que há no frasco.

Quais são os efeitos colaterais de anabolizantes?

Num estudo que acompanhou 100 homens num ciclo, todos tiveram ao menos um. Os mais comuns foram retenção de líquido, agitação, acne e queda da libido depois do ciclo. Há ainda reação no local da aplicação, alterações de humor, depressão ao parar e mais infarto e cardiomiopatia no longo prazo.

Qual anabolizante tem menos efeitos colaterais?

Não dá para prever. No HAARLEM, nem a dose nem a duração do ciclo previram quem teria colaterais, e a reação varia muito de pessoa para pessoa. Em amostras testadas na Austrália, na Suíça e na França, de metade a 80% eram falsas ou tinham dose errada, então o rótulo também não diz o que você está usando.

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