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Imagem sintética e meramente ilustrativa. Não é uma foto real.

Lee Priest: histórias e lições de um dos nomes mais autênticos do fisiculturismo

Histórias e lições de Lee Priest sobre treino, genética, fama, esteroides, ego e a velha cultura das academias.

Lee Priest virou um daqueles personagens raros do fisiculturismo que não cabem apenas em placings, fotos antigas ou estatísticas de palco. O físico era absurdo, sobretudo para a altura. Os braços pareciam desproporcionais até para os padrões profissionais. Mas a permanência dele no imaginário maromba vem de outra coisa: uma mistura de genética fora da curva, treino pesado, humor agressivo, histórias improváveis e uma recusa quase infantil a fingir ser mais polido do que realmente é.

Na entrevista "#183 - Lee Priest", do Cutler Cast, Jay Cutler e Matt Daniels deixam Priest contar sua própria história com o tipo de caos que sempre acompanhou sua imagem pública. Por trás das piadas e exageros, aparecem ensinamentos muito úteis sobre treino, carreira, drogas, fama, ego e a velha cultura das academias.

O adolescente australiano que chegou pronto

Priest começou cedo demais para parecer normal. Aos 13 anos, venceu suas primeiras competições. Aos 15, já acumulava títulos estaduais. Aos 17, venceu o overall do Mr. Australia pela primeira vez. Depois venceu de novo aos 18 e aos 19, mas continuou ouvindo que era jovem demais para receber o cartão profissional.

Os números da fase amadora são mais brutos do que parecem. Aos 13 anos ele venceu as três primeiras competições que disputou, na divisão escolar aberta a menores de 18. Aos 14 ficou em terceiro em uma categoria adulta. Aos 15 veio o primeiro título estadual. Aos 16 ele odiou fazer dieta, largou o regime e engordou, o único ano em que saiu da linha. Em 1989, com 17 anos, fez a primeira viagem aos Estados Unidos para o Mr. Universe amador da AAU, em Tucson, e ficou em segundo na categoria.

Esse detalhe explica muito da carreira dele. Priest não foi um adulto que descobriu musculação, montou um protocolo e decidiu virar atleta. Ele cresceu dentro daquilo. Antes de qualquer fama internacional, já tinha anos de palco, pose, dieta, treino e comparação corporal. A base não veio pronta em seringa, veio de repetição.

A rotina de base também tinha um fiscal. O avô acompanhava a preparação dele e fazia o cardio junto: aos 14 e 15 anos eram pedaladas de 20 km às 4 horas da manhã, no inverno australiano. Priest conta que acordava com chuva lá fora, comemorava por dentro que o treino estava cancelado e então via o avô batendo na janela do quarto, de capa de chuva, em cima da bicicleta.

Uma das histórias mais fortes é a competição em dupla com a própria mãe. Aos 17 anos, ele aceitou subir ao palco com ela depois de duvidar que ela entraria em forma. Oito meses depois, ela apareceu definida, competiram juntos e venceram um título nacional como mãe e filho. A cena é quase cômica, mas mostra o ambiente familiar em que a musculação não era apenas estética. Era uma linguagem comum.

Os detalhes da história: a mãe tinha 38 anos e estava acima do peso quando fez a proposta. Oito meses depois ela subiu ao palco seca, e os dois se tornaram a primeira dupla de mãe e filho do mundo a vencer um título nacional. Ela ainda competiu por mais 2 anos e parou. Priest brinca que ela foi a inteligente da família, porque ele continuou.

A chegada aos Estados Unidos

Quando chegou aos Estados Unidos, Priest encontrou o centro simbólico do fisiculturismo mundial: Gold's Gym, Venice, revistas, fotógrafos, atletas consagrados, contratos e a sensação de que tudo que ele via nas páginas das publicações agora estava vivo no mesmo ambiente.

A chegada foi em julho de 1993, e ele tinha passagem de volta marcada. Priest diz que veio para os Estados Unidos por 2 semanas, disputou o Niagara Falls já como profissional depois que Jim Manion foi acionado por intermediários, conseguiu o cartão profissional aos 20 anos, comemorou o aniversário de 21 na casa de Ed Connors e acabou ficando 20 anos no país. O contrato com a Weider saiu na mesma semana das primeiras fotos.

Jay Cutler relembra o impacto de vê-lo em 1993, recém-chegado, perto dos 21 anos, com braços gigantes e uma densidade que chamava atenção até entre profissionais. Priest menciona que, em fase mais pesada, seus braços chegaram a cerca de 61 cm (24 polegadas). Em competição, geralmente ficava na faixa de 92,5 a 95 kg (204 a 210 lb), com um visual que fazia muita gente apostar pesos bem maiores.

Os pesos de bastidor ajudam a dimensionar o personagem. Em julho de 1993, recém-chegado, ele estava por volta de 118 kg (260 lb). O mais pesado que já ficou foi 129 kg (285 lb). O mais pesado que já competiu foi 98,9 kg (218 lb), no Night of Champions em que ficou em quinto.

Essa é uma lição importante para qualquer praticante: no palco, proporção e condição podem criar uma ilusão mais poderosa do que o número da balança. Priest era baixo, cheio, redondo e extremamente denso. Quando entrava seco, parecia maior do que pesava. A obsessão moderna por peso corporal ignora isso.

Priest tem 1,66 m, e o exemplo favorito dele é o Pro de São Francisco que venceu: subiu ao palco com 90 kg (199 lb) e, quando perguntava aos fãs quanto achavam que ele pesava, o chute vinha em torno de 104 kg (230 lb). A regra prática que ele repete é direta: quem chega condicionado, com boas barrigas musculares e proporção, perde 2 kg a mais e parece 7 kg maior no palco.

Gold's Gym, World Gym e a velha cultura

A parte mais nostálgica da história aparece quando Priest descreve a rotina em Gold's Gym e World Gym. Não era só um lugar para treinar. Era um ecossistema. Atletas, atores, fotógrafos e figuras históricas conviviam no mesmo espaço. Arnold treinava pela manhã. Joe Gold funcionava como uma presença quase familiar. World Gym tinha regras duras, pouca tolerância para exibicionismo e uma atmosfera que forçava respeito pelo treino.

Os detalhes do ambiente: no World Gym não tocava música, e quem largava peso no chão ou fazia escândalo era expulso por Joe Gold em pessoa. Arnold aparecia quase todo dia por volta das 7 horas, mesmo em período de filmagem. Lou Ferrigno também era presença diária. Nas outras horas circulavam James Caan, Dennis Hopper, Keanu Reeves e Gregory Hines. E havia o detalhe do ferro: a Gold's tinha halteres até 81,6 kg (180 lb), e Joe mandou fabricar halteres de 90 kg (200 lb) para o World Gym, que Priest chegou a usar em supino.

Priest conta que Joe Gold se tornou uma espécie de avô adotivo. A relação foi tão próxima que, quando Joe morreu, deixou seus cães para ele. Depois disso, o ambiente já não parecia o mesmo, e Priest acabou se mudando.

A mudança foi para o Texas, e depois para o Arizona, antes da volta definitiva à Austrália. Vale registrar que academia, para ele, nunca foi obrigatória: na preparação para o Pro de São Francisco que venceu, ele treinou 6 meses inteiros em casa, com um Smith machine de cabos e um aparelho de halteres assistidos, e só descia até a Gold's para fazer cardio e olhar as pessoas treinarem.

O ensinamento por trás da nostalgia é simples: academia boa não é só equipamento. É cultura. É gente olhando, aprendendo, ajudando, dando spot, convivendo e levando treino a sério. Priest critica a era dos fones enormes, celulares e treinos isolados porque, na visão dele, parte da formação vinha justamente de observar quem sabia fazer.

O celular tirou a cabeça do treino

Uma das críticas mais diretas de Priest é ao uso de telefone durante a musculação. Para ele, quem quer ser realmente sério no fisiculturismo precisa conseguir passar uma ou duas horas sem mexer no aparelho. A frase dele é mais grosseira: a menos que você seja cirurgião cardiovascular de plantão, não existe justificativa para não largar o telefone por 1 ou 2 horas. A justificativa é prática: mudar uma música, ler uma mensagem ruim ou abrir uma rede social tira o foco mental do treino.

A mensagem não é contra tecnologia. É contra treinar com a cabeça em outro lugar. Na velha escola, o treino tinha presença. O atleta entrava, treinava, interagia com o parceiro e saía. Hoje, muita gente transforma a sessão em bastidor para conteúdo, gravação, música, mensagem e comparação.

A perda prática que ele aponta não é só de foco individual. Priest diz que hoje vê gente travada embaixo da barra sem ninguém ir ajudar, porque todo mundo está de fone. E que não entende dois parceiros de treino que passam a sessão inteira ouvindo música cada um por conta própria. Segundo ele, a música do ginásio deveria ser ruído de fundo a ponto de o atleta não saber dizer que faixa estava tocando.

Para quem treina de verdade, a recomendação continua atual: celular longe, execução consciente, parceiro atento e treino com início, meio e fim. O corpo sente quando a mente está dispersa.

Não existe atalho para a base

Priest insiste em um ponto que vale ouro para jovens: antes de pensar em drogas, construa base. Ele lembra que treinou natural dos 13 aos 19 anos, mesmo vencendo competições importantes. Quando finalmente usou recursos hormonais, já tinha estrutura, simetria, disciplina de palco e resposta genética evidente.

O primeiro ciclo dele está documentado no relato: 8 semanas, na metade dos 19 anos, com 200 mg de deca-durabolina por semana e nada além disso. Priest diz que ganhou cerca de 9 kg (20 lb) de músculo de imediato e que dá para ver a virada nas fotos daquele ano. Mais importante para quem está começando: ele usou um composto isolado primeiro e só acrescentou testosterona alguns meses depois, justamente para saber o que cada coisa fazia no corpo dele.

A crítica dele aos jovens atuais não é moralista. É prática. Muitos querem começar com combinações complexas, doses altas e substâncias agressivas antes de provar que têm a base mínima para justificar qualquer risco. O resultado é uma geração que tenta comprar, em poucos meses, uma maturidade muscular que leva anos.

O número que ele dá aos garotos é de 5 a 7 anos de trabalho de base antes de tocar em qualquer fármaco, com um argumento fisiológico simples: na adolescência a testosterona natural já está no pico, e não faz sentido desligar a própria produção justamente nessa fase. Em seminários na Inglaterra, ele conta ter encontrado garotos usando de 2 a 5 gramas por semana, e diz não saber sequer onde essas pessoas aplicam tanta coisa.

O ponto central é desconfortável: esteroide não transforma qualquer pessoa em profissional. Ele conta o caso de um garoto no quinto ano de medicina, filho de médicos, que mandou fotos perguntando se devia largar a faculdade para virar fisiculturista. A resposta foi que ele treinava bem, mas não tinha estrutura para ser um bom profissional de palco, e que deveria terminar medicina e continuar treinando. O garoto respondeu xingando. Pode aumentar massa, recuperação e aparência, mas não cria genética, estrutura óssea, inserções, simetria, disciplina ou inteligência de treino. Priest usa uma analogia simples: colocar combustível de dragster em um carro comum não faz o carro virar dragster.

A analogia é literal, porque ele foi piloto de arrancada e ganhou campeonato na categoria: o combustível especial do top fuel dentro de um Toyota Camry não transforma o Camry em top fuel. Ele estende o raciocínio para outros esportes. Existe muita gente rápida no mundo, mas nenhuma droga transforma um velocista comum em Usain Bolt ou Carl Lewis. E a conclusão incomoda: se todo mundo parasse de usar tudo hoje, os mesmos nomes que estão no palco do Olympia continuariam lá, apenas menores.

O alerta sobre exageros hormonais

Priest fala abertamente sobre o que usou e sobre o que considera exagero moderno. Ele relata que, em sua experiência, respondia bem a quantidades que muitos atletas atuais chamariam de baixas. Também afirma que via amadores usando mais do que profissionais, especialmente por acreditarem que o tamanho de um atleta sempre reflete uma dose maior.

Os números que ele cita da própria carreira: no máximo 400 mg de testosterona por semana, dose que manteve por quase toda a carreira. Uma vez aceitou subir para 800 mg por sugestão de um patrocinador, passou mal, se sentiu péssimo e voltou aos 400. Com dianabol nunca ultrapassou 30 a 40 mg por dia. Usou hormônio de crescimento apenas duas vezes na vida, em 1994 e em 1996, e diz não ter sentido resultado nenhum. Nunca usou insulina. O ciclo mais caro que fez custou por volta de 1.300 dólares. Fora de preparação, ficava até 4 meses sem tocar em nada, parava as injeções 2 semanas antes do palco e nunca fez terapia pós-ciclo.

Essa parte exige cuidado. Não é convite para copiar número, droga ou estratégia. O valor do relato está no alerta: mais substância não significa automaticamente mais físico, mais segurança ou mais carreira. A única pessoa que ganha de forma garantida quando um praticante aumenta tudo sem critério é quem vende.

O contraste que ele usa é desconfortável de propósito. A ex-esposa dele, que competia, dizia conhecer mulheres usando mais do que ele usava como profissional de topo. E o exemplo atual citado no encontro é de uma atleta de bikini tomando de 40 a 50 mg de oxandrolona por dia porque o treinador dela afirmou que as profissionais tomam 100 mg. O desafio que Priest costuma propor aos garotos é prático: fique limpo 4 meses, volte com uma dose pequena e compare o resultado, porque não há nada a perder no teste.

Priest também cita experiências ruins, como desconforto intenso com trembolona e problemas com aplicações. Foram quatro usos de trembolona na vida inteira. A última vez foi na preparação para o Night of Champions de 2000: aplicou no ombro, veio uma tosse súbita e em seguida uma pressão no peito que ele descreve como uma paulada, achou que estava tendo um infarto com a agulha ainda na mão e nunca mais usou. Ele lembra também de uma aplicação de estanozolol que inflamou o ombro antes do Ironman de 2006 e terminou em hospital, com o médico abrindo o local e não achando infecção nenhuma. E de uma cardiomiopatia causada por infecção viral que o tirou de um show. Desde o início dos anos 2000 ele faz check-up cardíaco todo ano. O recado é brutalmente simples: se uma droga tira sono, apetite, humor, saúde e lucidez, a pergunta não deveria ser como encaixá-la no protocolo, mas por que continuar usando.

Priest também ri da precisão falsa dos protocolos rígidos. Conta que ele e um colega deixavam a ampola de estanozolol na fruteira da sala e passavam dias sem aplicar, sem que isso mudasse o resultado, enquanto conhecidos entravam em pânico se atrasassem a aplicação da sexta-feira em algumas horas. E que, ao ler pela primeira vez o rótulo veterinário do frasco, viu que a recomendação era de 2 ml por 100 kg de cavalo a cada 8 dias e começou a se perguntar por que estava aplicando 1 ml em dias alternados em si mesmo.

Treinar pesado ainda importa

O estilo de treino de Priest era volumoso, frequente e sem muito romantismo. Ele fala em pelo menos 20 séries para bíceps, 20 para tríceps e 30 ou mais para pernas. Também defende que muitos atletas de sua época treinavam duas vezes ao dia e não tratavam 45 minutos como limite sagrado.

O resto da rotina acompanhava o volume. Em preparação, Priest fazia de 2 a 3 horas de cardio por dia, além dos dois treinos. E ele lembra que Arnold contava treinar três vezes ao dia em algumas fases, intercalando com praia e comida. A provocação que ele faz é difícil de responder: mostre outro esporte em que o melhor do mundo treina 45 minutos por dia.

Não significa que todo leitor deva copiar esse volume. Significa que a busca atual pelo mínimo esforço muitas vezes distorceu a conversa. O fisiculturismo nasceu de trabalho repetido, cargas progressivas, volume acumulado, alimentação e descanso. Métodos existem, mas nenhum método salva preguiça.

A crítica dele a certos discursos de "menos é sempre melhor" vem dessa vivência. Para Priest, o corpo aguenta muito quando existe comida, sono, recuperação e uma rotina compatível. Ele admite, por outro lado, que o próprio ponto fraco era a fase fora de competição. Chegava a subir mais de 23 kg (50 lb) no off-season, batia 129 kg e em alguns anos ficava em 115,7 kg (255 lb), comendo só duas refeições grandes por dia e, na maioria dos anos, sem usar nada. O maior erro da carreira, na avaliação dele, não foi ter usado pouco. Foi ter sido desleixado na alimentação de off-season. O problema não é treinar forte. O problema é treinar forte sem recuperação, sem estrutura e sem honestidade sobre o próprio limite.

Autenticidade, política e punição

Lee Priest foi suspenso, multado e frequentemente colocado em conflito com dirigentes. Ele conta episódios de briga com a política do esporte, questionamento de julgamentos e decisões que custaram dinheiro ou oportunidades. O total de multas que ele calcula ter pago à federação chega a 17 mil dólares. Em um dos anos precisou escolher entre 12 meses de suspensão e uma multa de 5 mil dólares, e pagou a multa para poder disputar o Olympia. Em outro, foi suspenso por ter pulado um Pro de Houston com autorização de Joe Weider, que não valia nada para quem organizava as competições. Em 2001 chegou a processar a federação por um teste positivo, com 60 mil dólares em jogo. E, em um Olympia, foi rebaixado do quinto para o sexto lugar depois do show já encerrado, o que custou 10 mil dólares a ele e 20 mil ao atleta que também caiu na remanejada. O mais interessante é que ele não parece tratar isso como tragédia pessoal.

A primeira ferroada veio bem antes disso. Aos 19 anos, no Mundial amador em Katowice, na Polônia, ele foi desclassificado por doping depois do prejuízo, mesmo tendo passado por dois testes negativos do Instituto Australiano do Esporte antes de viajar. A amostra B foi perdida, e o pedido da mãe para pagar do próprio bolso um novo teste, que custava cerca de 370 dólares, foi vetado pelo dirigente australiano. Os técnicos das outras delegações lhe deram relógios e presentes naquela noite, porque todo mundo sabia o que tinha acontecido.

Essa postura explica por que tantos fãs se conectaram com ele. Priest parecia menos interessado em ser o atleta perfeito e mais interessado em ser ele mesmo. Pagava entrada quando chegava a uma academia, sem usar "você sabe quem eu sou?" como cartão. O episódio mais conhecido é o dia em que pagou cerca de 30 dólares de diária para treinar na própria Gold's, sem reclamar. Alguém fotografou e publicou, a academia levou uma enxurrada de mensagens raivosas que continuava chegando anos depois, e ele nunca alimentou a briga. No mesmo espírito, diz que em mais de 40 anos de treino nunca perguntou a ninguém quantas séries faltavam para liberar um aparelho, porque perder 20 kg importa para a pessoa do lado tanto quanto o Olympia importava para ele. Dava atenção aos fãs. Preferia admitir falhas e histórias constrangedoras a vender uma imagem higienizada.

No fisiculturismo, onde pose, aparência e hierarquia importam tanto, essa falta de reverência virou parte do personagem. Ele não era apenas o corpo diferente. Era o profissional que parecia rir do próprio pedestal.

O público antes do troféu

Priest admite que nunca amou competir do jeito que muita gente imagina. Gostava de treinar, gostava de encontrar fãs e gostava da cultura ao redor. As competições eram parte do trabalho, mas não o centro emocional de tudo. Em determinado momento, ele percebeu que podia ganhar mais ficando na feira, vendendo fotos e atendendo pessoas do que subindo ao palco em um cenário político desfavorável.

O episódio que ele descreve tem números. Em um Arnold Classic, uma repórter do jornal local o avisou de que tinha ouvido os juízes passando um artigo dele de mão em mão e combinando de derrubá-lo no dia seguinte. Priest se recusou a subir, ficou no estande o fim de semana inteiro e faturou cerca de 15 mil dólares em dinheiro vendendo fotos, mais do que ganharia com uma colocação média. Para efeito de comparação, os prêmios da época giravam entre 10 e 15 mil dólares para quem vencia.

Isso não diminui o atleta. Pelo contrário, humaniza. Alguns competidores vivem para o troféu. Outros vivem pela rotina, pela identidade e pela conexão com quem acompanha. Priest parecia pertencer ao segundo grupo.

O dinheiro entrava e saía sem drama. No auge, ele calcula ter faturado por volta de 18 mil dólares por mês em contratos. Quando perdeu tudo de uma vez, caiu para 4 mil e diz que não se abalou, porque as contas continuavam pagas e a academia continuava aberta. Nesse período chegou a recusar convites para posar como convidado em competições só porque preferia ficar em casa assistindo.

Também há uma lição para quem coloca toda autoestima em colocação. O julgamento muda, o critério muda, o atleta do lado muda, e o próprio corpo pode responder pior depois de várias competições. Se a carreira inteira depende de um placar, qualquer decisão externa destrói a paz. Ele conta que administrava isso com uma meta baixa de propósito: nos anos em que os 10 primeiros do Olympia garantiam vaga no ano seguinte, ele entrava mirando o décimo lugar, e qualquer coisa acima disso era bônus. Ficou entre os cinco primeiros do Olympia três vezes. Priest parecia entender cedo que o público e a própria história valiam mais do que algumas decisões de mesa.

A maturidade muda a régua

Um trecho importante aparece quando ele fala sobre envelhecer. Quando jovem, a ideia de morrer cedo por causa do esporte podia parecer distante ou até aceitável dentro de uma mentalidade extrema. Aos 50 e poucos anos, a régua muda. Agora ele fala em querer chegar aos 60, 70 e continuar vivendo.

A conta de tempo dele também tem uma marca externa. A carreira competitiva terminou por volta dos 40 anos, com uma volta no NABA Universe em 2013 e o último show na federação principal em 2006. O plano de competir de novo em 2015 morreu em um acidente de carro que esmagou os nervos do pescoço dele, aos 45 anos.

Essa virada é uma das melhores mensagens da entrevista. O que parece coragem aos 20 pode parecer burrice aos 50. O corpo cobra. Lesões aparecem. Acidentes encerram planos. A saúde deixa de ser detalhe.

Priest ainda treina, ainda viaja, ainda faz aparições e ainda mantém o humor corrosivo. A rotina atual é outra: acorda às 3 horas da manhã todos os dias, cuida de sete gatos e dois cachorros, leva a mulher ao trabalho e vai para a academia, onde hoje faz trabalho em circuito porque acumulou lesões demais. O critério de sucesso mudou de lugar. Se conseguiu bombear sem se machucar, o dia foi bom. Ele lembra que, na época das excursões europeias, chegou a competir 11 vezes em um único ano. Mas a visão é menos romântica sobre destruir tudo por um sonho. Ele aconselha jovens a serem realistas, a não largarem uma carreira sólida por uma fantasia improvável e a entenderem que gostar de musculação não significa ter potencial profissional.

O que Lee Priest ensina sem tentar ensinar

O legado de Lee Priest não é um manual educado. É quase o contrário. Ele ensina porque viveu muito, errou muito, treinou muito e fala sem embalagem. Das histórias, ficam algumas lições:

  • Base vem antes de qualquer atalho.
  • Genética existe, mesmo quando muita gente prefere fingir que não.
  • Mais droga não transforma físico comum em elite.
  • Academia forte é cultura, não apenas equipamento caro.
  • Celular e distração roubam intensidade.
  • Treinar pesado, comer, descansar e repetir ainda são fundamentos.
  • Fama sem autenticidade vira personagem vazio.
  • Envelhecer obriga o atleta a pensar em saúde, não só em impacto visual.

Conclusão

Lee Priest permanece relevante porque representa uma era em que o fisiculturismo parecia menos filtrado, menos ensaiado e mais físico. Ele foi freak, foi popular, foi problemático, foi engraçado, foi punido e foi amado justamente por não parecer fabricado. As histórias são exageradas, mas os ensinamentos são práticos: construa base, respeite a genética, pare de procurar segredo, treine com foco, cuide da saúde e não venda a alma para parecer atleta antes de ser atleta.

FAQ

Quem é Lee Priest?

Lee Priest é um fisiculturista australiano conhecido por sua massa muscular extrema, braços gigantes, baixa estatura, carisma com os fãs e personalidade sem filtro. Ele competiu no fisiculturismo profissional e se tornou uma figura cultuada da velha escola.

Por que Lee Priest ficou tão popular?

A popularidade veio da combinação entre físico impressionante, visual marcante, fotos icônicas, presença nas revistas, ligação com Gold's Gym e World Gym, além de um jeito direto que contrastava com atletas mais polidos.

Qual é a principal lição de treino de Lee Priest?

A principal lição é que não existe substituto para base. Anos de treino consistente, esforço real, comida, recuperação e presença mental importam mais do que procurar fórmulas secretas.

Lee Priest defendia doses altas de esteroides?

Não. Na entrevista, ele critica justamente a lógica de que doses maiores produzem automaticamente físicos melhores. O relato dele reforça cautela, individualidade e a ideia de que drogas não criam genética.

O que a história dele ensina para jovens marombas?

Ensina a ter paciência, construir estrutura antes de buscar atalhos, ser realista sobre potencial competitivo e não sacrificar saúde, profissão e vida pessoal por uma fantasia sem base.

Quanto Lee Priest usava de esteroides?

Segundo o relato dele, no máximo 400 mg de testosterona por semana, dianabol nunca acima de 30 a 40 mg por dia, hormônio de crescimento apenas em 1994 e em 1996, nenhuma insulina e trembolona quatro vezes na vida inteira. O relato é histórico e não serve como protocolo para ninguém.

Quanto Lee Priest pesava e qual era a altura dele?

Ele tem 1,66 m. Competia em geral entre 92,5 e 95 kg, chegou a 98,9 kg no palco e desceu a 90 kg no Pro de São Francisco que venceu. Fora de competição, o mais pesado que ficou foi 129 kg.

Qual era o volume de treino de Lee Priest?

No mínimo 20 séries por grupo muscular, com 20 séries para bíceps, 20 para tríceps e 30 ou mais para pernas, somadas a dois treinos por dia e de 2 a 3 horas de cardio nas fases de preparação.

Referências

  1. CUTLER CAST. #183 - Lee Priest. [S. l.], 28 out. 2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=tf1fmBdmFLM. Acesso em: 3 ago. 2026.

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