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Miocinas: o que são e por que o músculo é a farmácia do corpo

Ao contrair, o músculo solta proteínas que falam com a gordura, o cérebro e o sistema imune. Veja o que as miocinas fazem e o que ainda é só promessa.

Miocinas são substâncias, quase todas proteínas, que o músculo libera quando contrai. Muitas vão pelo sangue e levam mensagens à gordura, ao fígado, ao osso, ao cérebro e ao sistema de defesa do corpo. É por isso que o músculo ganhou o apelido de farmácia: treinar faz ele produzir substâncias que agem em outros órgãos.

O apelido é usado pelo professor Fabio Ceschini, do canal "Viajando pela Fisiologia", em "Descubra Por Que o Músculo é a Farmácia Mais Barata do Mundo!", com o recado: cuide bem dos seus músculos, e eles cuidam da sua saúde. A ideia tem base na fisiologia, mas parte dos exemplos só apareceu em camundongos.

O que são miocinas e para que servem

Quando se fala em saúde, o primeiro órgão lembrado é o coração. O músculo costuma ficar de fora, apesar de ser o maior tecido do corpo de um adulto sem obesidade: o músculo esquelético, o que se mexe por vontade própria, é cerca de 38% do peso dos homens e 31% do das mulheres. Manter força, potência, resistência e massa muscular ao longo da vida anda junto com melhor saúde geral.

O nome miocina foi proposto em 2003, depois que pesquisadores mostraram que o músculo em contração libera no sangue a interleucina 6 (IL-6), uma substância antes conhecida só pelo papel no sistema de defesa. Desde então, o músculo passou a ser visto como um órgão que manda mensagens químicas, como uma glândula. Essa comunicação é de mão dupla, uma conversa cruzada: o músculo manda mensagens para cérebro, vasos, osso, fígado, pâncreas, intestino, glândulas adrenais, gordura, pele e sistema de defesa, e também recebe mensagens deles.

O gatilho é a contração. O músculo foi feito para se mexer, e cada contração estimula a produção dessas proteínas. Durante um exercício longo, a IL-6 no sangue pode ficar até 100 vezes acima do nível de repouso. Qualquer contração conta, da musculação à bicicleta.

Quantas miocinas existem e quais são as principais

Já foram identificadas centenas. Num estudo com células musculares humanas, a célula liberou 548 proteínas, e 305 podiam ser miocinas. A função só é conhecida em cerca de 5% delas, segundo uma revisão de 2020. A tabela mostra as que aparecem nos exemplos mais conhecidos.

MiocinaPara onde vaiO que se sabe
IL-6Gordura e sistema de defesaEm pessoas: solta a gordura armazenada e tem efeito anti-inflamatório depois do exercício
IrisinaGordura e cérebroEm camundongos: ligada a mais BDNF no cérebro. Em pessoas, o efeito ainda não foi comprovado
FSTL1Vasos sanguíneosEm camundongos: mais vasos em tecido sem circulação
SPARCIntestinoEm camundongos: com exercício, menos lesões que antecedem o câncer de intestino

IL-6: a miocina que solta a gordura e acalma a inflamação

A IL-6 é o exemplo mais estudado. Liberada pelo músculo durante a contração, ela vai pelo sangue até a gordura e estimula a quebra da gordura armazenada, a lipólise. A gordura solta é queimada sobretudo pelo próprio músculo em atividade. Num ensaio com pessoas, quem fez 12 semanas de bicicleta usando um remédio que bloqueia a IL-6 não perdeu a gordura visceral, a que fica em volta dos órgãos na barriga, que os outros perderam.

A IL-6 do exercício também acalma a inflamação. Ela age nas células de defesa, aumenta substâncias que combatem a inflamação e segura uma das principais substâncias inflamatórias, a TNF-alfa. Isso importa porque a inflamação crônica favorece doenças do coração, do cérebro, do fígado, do pâncreas e dos ossos. Há um paradoxo: na obesidade, a IL-6 fica alta o tempo todo e funciona como sinal de inflamação. O que faz bem é o pulso curto do exercício.

Irisina e FSTL1: o que ainda é promessa

A FSTL1 é uma proteína do músculo que age nos vasos pequenos. Em camundongos, ela aumentou a formação de vasos em tecido que tinha perdido a circulação. A ideia de que ela protege o coração humano contra doença cardiovascular ainda não foi demonstrada.

A irisina é uma das miocinas mais citadas fora dos laboratórios. Em camundongos, ela aumentou o BDNF, uma proteína que ajuda os neurônios a crescer, e recuperou a memória em modelos de Alzheimer. Daí veio a ideia de que o treino protege contra ansiedade, pânico, depressão, Alzheimer e Parkinson pela irisina. Em pessoas, nada disso foi provado. A própria medida da irisina humana foi questionada, porque os kits de laboratório davam resultados errados. Com um método mais preciso, ela foi encontrada no sangue e subiu cerca de 20% com treino intervalado aeróbio.

O exercício faz bem ao cérebro e ao humor por vários caminhos, e as miocinas são um deles. Atribuir isso a uma única proteína é ir além do que os estudos mostram hoje.

Como liberar miocinas: o treino que funciona

Nenhum suplemento comprovou liberar miocinas. O que libera é a contração muscular. O treino de força é o mais lembrado: musculação, treino com o peso do corpo, treino funcional. Aeróbio também conta, e os estudos de saúde mostram os melhores resultados com força e aeróbio juntos. O objetivo é ganhar força, potência e resistência, ganhar massa muscular e manter essa massa por muitos anos.

Os benefícios da musculação para a saúde aparecem também nos números de força e mortalidade. Em 8.762 homens, os de força média e alta tiveram risco de morte 28% e 23% menor que os mais fracos. Numa revisão com cerca de 2 milhões de pessoas, quem tinha mais força para apertar com a mão teve risco 31% menor. E numa revisão de estudos, quem fazia treino de força teve 10% a 17% menos mortalidade, com o maior efeito perto de 30 a 60 minutos por semana. São estudos de observação: mostram associação, e não causa. Quanto treinar para viver mais está em musculação e longevidade: quanto treinar.

Depois dos 40: emagrecer sem perder músculo

Para quem tem 40 anos ou mais, a sugestão é se preocupar menos com emagrecer e mais com o músculo: massa, força e função. Os estudos apoiam fazer as duas coisas juntas. Em quem tem obesidade, perder gordura também é meta de saúde, e o que protege o músculo é emagrecer treinando força. Quanto a perda de massa magra pesa na saúde ainda está em discussão.

A perda de massa magra ao emagrecer é real, mas tem tamanho. Massa magra é tudo o que não é gordura, incluindo músculo e água. Pela regra clássica, usada com ressalvas, cerca de um quarto do peso perdido com dieta é massa magra. Com os remédios para emagrecer à base de GLP-1, como Ozempic® e Mounjaro®, a fração vai de cerca de 15% em alguns estudos a 40% ou 60% em outros. O treino de força reduz essa perda: em idosos com obesidade que perderam 9% do peso em 6 meses, a massa magra caiu 2% com musculação, 3% com musculação e aeróbio e 5% só com aeróbio. Os sinais de perda de força nas pernas estão em pernas fracas depois dos 50: sinais e o que fazer.

O músculo ajuda a perder gordura, pela IL-6 e pela energia que gasta em atividade. Quanto de gordura sai depende sobretudo da dieta e do gasto total.

Conclusão

O músculo é mesmo uma farmácia barata: ao contrair, ele libera miocinas que ajudam a soltar a gordura, acalmam a inflamação e conversam com vários órgãos. A IL-6 tem prova em pessoas. A irisina e a FSTL1 ainda são promessa. Na prática, treinar força, de preferência junto com aeróbio, e manter músculo ao longo da vida, sobretudo depois dos 40, está associado a viver mais.

Perguntas frequentes

O que são miocinas e para que servem?

São substâncias, quase todas proteínas, que o músculo libera quando contrai. Muitas vão pelo sangue a outros órgãos: a IL-6, por exemplo, ajuda a soltar a gordura armazenada e tem efeito anti-inflamatório depois do exercício.

Quais são os tipos de miocinas e quantas existem?

Já foram identificadas centenas, e a função de cerca de 5% é conhecida. Elas costumam ser agrupadas pelo órgão em que agem: gordura, cérebro, vasos, osso, intestino e sistema de defesa. A IL-6 é a mais estudada em pessoas.

A miocina é um hormônio?

Muitas agem como hormônio: saem do músculo, viajam pelo sangue e agem em outro órgão. Outras agem só no próprio músculo ou nos tecidos vizinhos.

Como aumentar a liberação de miocinas?

Com contração muscular, ou seja, exercício. Exercícios mais longos e com mais músculos trabalhando liberam mais IL-6. Nenhum suplemento comprovou esse efeito.

Miocinas ajudam a emagrecer?

A IL-6 liberada no exercício ajuda a soltar a gordura, e sem ela o treino não reduziu a gordura visceral num ensaio. Quanto se emagrece depende sobretudo da dieta e do gasto total.

Miocinas protegem contra o câncer?

Há sinais só em laboratório e em animais: com a SPARC, liberada no exercício, camundongos tiveram menos lesões que antecedem o câncer de intestino. Em pessoas, não há prova de efeito das miocinas sobre o câncer.

Referências

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Comentários Recomendados

Pokoyô

Membro
(editado)

É muito comum a gente ver fisiculturistas profissionais dando entrevistas ofegantes...isso não parece normal...então acho que altas dosagem de anabois não é uma coisa saudável.

E pra quem acredita que reposição hormonal rejuvenesce então tente e boa sorte.

Sou testemunha apenas do fisiculturismo natural com moderação sem anabolizantes.

Quando eu era jovem ia caminhando a noite  até minha faculdade em Brasília....do meu primeiro curso ...e muitas vezes tive de parar com arritmia...a musculação resolveu isto.

Já fiz exames de esteira...imagens e aquele que passa o dia com aparelho e nunca diagnosticaram minha arritmia que nunca ocorreu nesses momentos...e que agora se manifesta raramente em situações de muito esforço aeróbico ou emoção.

Outro dia meu exame mostraram que eu tenho um condicionamento muito bom para minha idade e não faço aeróbicos...claro que musculação natural fortaleceu meu coração. 

Ainda como açúcar e isso é horrível...é uma coisa que temos que evitar...uso ele no cafezinho e no chá mate mas estou reduzindo drasticamente.

Ainda tomo três latas de coca diet por semana....outro veneno.

Mas como frutas...castanhas...saladas...não abuso das proteinas e isso combinado com musculação natural moderada é vacina e remédio.

Editado em por Pokoyô

  • Moderador

Muito bacana o seu relato @Pokoyô! Tem anos de história aqui no fórum do fisiculturismo para demonstrar a sua evolução e o seu conhecimento testado ao longos dos anos sobre musculação e nutrição!

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