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Glicerol x Glicerina bi-destilada: tudo sobre

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  • 6 anos depois...

@joey10br fez um trabalho sério nesse tópico e acertou a parte química: glicerol e glicerina são a mesma molécula, o 1,2,3-propanotriol. Isso está correto e continua correto.

Mas tem um ponto em que a conclusão do tópico ficou perigosa, e como muita gente aqui passou a beber glicerina comprada como produto de uso externo, preciso desenvolver.

Por que uso externo e uso interno não são a mesma coisa

@nobre notou que o frasco dele dizia uso externo, e o colega lipkno orientou pedir a versão para uso interno. Essa distinção não é burocracia, e ela não é sobre a molécula. É sobre o que mais pode estar dentro do frasco.

Glicerina destinada a ingestão precisa ser testada para um contaminante específico: o dietilenoglicol, conhecido como DEG. Ele é um solvente industrial barato, quimicamente parecido com a glicerina, e é a causa de uma das histórias mais sombrias da indústria farmacêutica.

Ele já provocou envenenamentos em massa várias vezes, sempre pelo mesmo caminho: alguém vendeu DEG como se fosse glicerina de grau farmacêutico.

No Panamá, em 2006, xaropes contaminados causaram 219 mortes por insuficiência renal aguda. As análises encontraram cerca de 8 por cento de DEG, quando o limite aceitável é abaixo de 0,10 por cento.

Na Gâmbia, em 2022, 78 crianças tiveram lesão renal aguda por xaropes contaminados, com letalidade acima de 80 por cento entre as que pararam de urinar. Episódios semelhantes ocorreram no Haiti, na Índia, na Nigéria, na Indonésia e no Uzbequistão.

E o detalhe mais desconfortável: em vários desses casos os produtos chegaram acompanhados de certificado de análise atestando qualidade.

É por isso que glicerina para ingestão passa por controle e ensaio específico para DEG, e glicerina vendida como uso externo não passa pelo mesmo crivo. Não significa que o frasco de 2,40 que vocês compraram estivesse contaminado. Significa que ninguém verificou, e que a via oral é justamente onde esse contaminante mata.

Então o resumo correto é: a molécula é a mesma, o padrão de pureza exigido não é. Se for ingerir, tem que ser produto com destinação de uso interno.

O que o glicerol faz, e o que ele não faz

Aqui cabe corrigir a comparação com creatina que apareceu no tópico.

O glicerol é osmoticamente ativo e se distribui pela água corporal total, expandindo principalmente o compartimento extracelular e o volume plasmático. Ele não puxa água para dentro da célula muscular.

A creatina faz o oposto: entra na célula muscular e leva água para dentro dela, e é por isso que dá aspecto de músculo mais cheio.

São mecanismos diferentes, em compartimentos diferentes.

Consequência prática: aqueles 2,2 quilos que o @MMeds comemorou não são músculo nem volume muscular. É água distribuída pelo corpo, e some em um ou dois dias sem o produto. O glicerol não é auxiliar de hipertrofia.

O que ele é de verdade é um recurso de hiper-hidratação, usado principalmente em provas de resistência no calor, para expandir a água corporal e melhorar a termorregulação. Nesse contexto ele tem respaldo real.

Sobre a dose, que ficou sem resposta

@nobre perguntou três vezes e recebeu sempre duas colheres de sopa, mas também tinha lido 1 grama por quilo. Ele estava certo em estranhar.

O protocolo usado nos estudos é de 1 a 1,2 grama por quilo de peso, junto com um volume grande de líquido, algo em torno de 25 mililitros por quilo, tomado de 60 a 120 minutos antes.

Para alguém de 71 quilos, isso dá aproximadamente 71 gramas, o que é quase quatro vezes as duas colheres que circulavam aqui. Ou seja, quem seguiu as duas colheres tomou uma dose abaixo do que produz o efeito estudado.

E os efeitos adversos dessa dose completa existem: dor de cabeça, náusea, empachamento e tontura são comuns. E, combinado com volume grande de água como o @MMeds sugeriu, há risco de hiponatremia, que é a queda perigosa do sódio no sangue. Não é coisa para fazer no escuro.

Um detalhe de época que fecha bem

Em 2010, cinco anos depois deste tópico, o glicerol foi incluído na lista de substâncias proibidas da Agência Mundial Antidoping, classificado como agente mascarante, por expandir o plasma e potencialmente diluir marcadores.

E em 1º de janeiro de 2018 ele foi retirado da lista, porque se concluiu que o efeito mascarante era pequeno demais para ser relevante e que o glicerol é ubíquo demais no metabolismo e nos alimentos para se estabelecer um limite prático.

Ou seja, hoje é substância permitida.

Sobre o vendedor do mercado livre

@joey10br acertou também nessa: a tal fórmula com triglicerídeos, glicerol trifosfato desidrogenado, água destilada e álcool de cereais é invenção. Glicerol é uma substância única. Se tem outras coisas misturadas, não é glicerol puro, e os nomes ali são embaralhamento de termos de bioquímica para parecer sofisticado.

O que vocês descobriram sobre o preço estava certo. O que faltou foi o cuidado com a origem.

As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.

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