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  • 4 anos depois...

Esse tópico tem um achado clínico logo na primeira página, e ele merece ser desenvolvido, porque foi bem identificado e mal explicado.

A @marianap chegou com 24 anos, 1,70 m e 55 kg, dizendo que perdia peso muito rápido e não conseguia ganhar. E trouxe exames que ela mesma ainda não tinha mostrado a nenhum médico.

O @Apollo Galeno olhou aqueles exames e notou três coisas ao mesmo tempo: TSH, T4 livre e T3 livre alterados, e SHBG elevado. Encaminhou de volta ao endocrinologista e chegou a sugerir imagem de hipófise. Ela repetiu em outro laboratório e a alteração se confirmou.

Isso foi bem visto e vale explicar o porquê, porque a associação que ele apontou não é coincidência, e ela responde exatamente a queixa que ela trouxe.

Excesso de hormônio tireoidiano aumenta o gasto energético de repouso. Ou seja, a pessoa gasta mais em pé, parada, dormindo, sem fazer nada diferente de ninguém. Isso produz perda de peso e dificuldade de ganhar, que foi literalmente a frase com que ela abriu o tópico.

E o SHBG fecha o raciocínio: hormônio tireoidiano aumenta a produção hepática de SHBG. Ou seja, os dois achados não eram dois problemas, eram o mesmo problema visto de dois ângulos. É por isso que a combinação chamou atenção.

Agora o ponto que ninguém ligou, e que eu acho o mais importante do relato inteiro.

Ela informou, no primeiro post, que usa alprazolam por transtorno de ansiedade, para dormir.

Hipertireoidismo produz, de forma clássica: palpitação, insônia, irritabilidade, tremor, sensação de calor e inquietação. É um dos grandes imitadores de transtorno de ansiedade, a ponto de a dosagem de TSH ser rotina na investigação de quadros ansiosos.

Não estou dizendo que a ansiedade dela é só tireoide. Não dá para afirmar isso por um fórum, e ansiedade pode perfeitamente existir junto. Mas é uma pergunta que ela precisa levar, escrita, para o endocrinologista e para quem prescreveu o alprazolam: parte desses sintomas pode ser tireoidiana, e nesse caso tratar a tireoide muda a necessidade do resto.

Duas notas importantes sobre o alprazolam, e nenhuma delas é para ela mudar nada por conta própria.

A primeira: benzodiazepínico não se interrompe de forma abrupta. A retirada, quando indicada, é gradual e conduzida por quem prescreveu.

A segunda, que interessa direto ao projeto dela: benzodiazepínicos ajudam a adormecer, mas alteram a arquitetura do sono, reduzindo as fases profundas. Ou seja, a pessoa dorme, mas o sono rende menos em recuperação. Para quem está treinando pesado e em fase de ganho, isso importa. É mais um motivo para a conversa acontecer.

Agora onde eu discordo do encaminhamento do tópico.

Foi dito a ela, mais de uma vez, que a inteligência estava sendo usada a favor dela, e que ela teria o shape com patologia ou sem patologia.

Preciso discordar do enquadramento. Hipertireoidismo não tratado não é uma vantagem metabólica a ser aproveitada. Ele cobra em dois lugares específicos, e os dois são caros.

O primeiro é o coração. Excesso de hormônio tireoidiano aumenta frequência cardíaca de repouso e é causa reconhecida de arritmia, incluindo fibrilação atrial, inclusive em pessoas jovens. Isso pesa mais em quem treina forte e faz cardio.

O segundo é o osso, e esse é o que me preocupa mais nela. Hormônio tireoidiano em excesso acelera a remodelação óssea e reduz a densidade mineral. Ela tem 24 anos, ou seja, está exatamente no período em que se constrói o pico de massa óssea, que se completa por volta dos 30. Perda óssea nessa faixa é justamente a que não se recupera depois, e não dá sintoma nenhum: não aparece na fita, não aparece na balança, não aparece na foto.

Ou seja, a pressa não é estética. Ela tinha um motivo para acelerar a consulta que era melhor do que o peso, e ela mesma escreveu que estava tentando antecipar o retorno e que estava difícil.

Agora um detalhe técnico que foi perguntado com precisão e que merece ser explicado, porque é o erro de exame mais comum que existe nessa área.

O @Apollo Galeno perguntou a ela, logo no começo, se andava tomando alguma vitamina para cabelo, algo com biotina.

Essa pergunta é exatamente a certa. Biotina em dose alta interfere em boa parte dos imunoensaios usados em laboratório, e o efeito sobre o painel de tireoide é característico: tende a elevar falsamente T4 e T3 livres e a reduzir falsamente o TSH, produzindo um resultado que imita hipertireoidismo em quem não tem nada.

É por isso que a orientação padrão é suspender biotina alguns dias antes da coleta. Ela tinha usado Pantogar meses antes, o que torna a interferência improvável, e a repetição em outro laboratório confirmou a alteração. Mas quem lê isso hoje precisa saber: suplemento de cabelo, unha e pele antes de exame de tireoide é a causa número um de painel alterado sem doença.

E ela mesma deu, sem querer, a segunda lição sobre isso, com uma honestidade que merece registro: contou que tinha tomado um comprimido de B12 na casa de um amigo vegano, de brincadeira, na semana do exame, e que a B12 veio altíssima. É a mesma história em miniatura. Suplemento tomado de forma casual aparece no exame, e quem lê o resultado depois não tem como adivinhar.

Agora a coluna de pesos, em que ela também acertou sozinha.

Os registros foram 55,1, depois 54,8, depois 58, depois 55,75. E foi ela quem identificou o problema: a penúltima pesagem tinha sido na farmácia, a seguinte numa balança de ponteiro comprada para casa, e ela estava vestida de forma diferente.

Ela mesma corrigiu o próprio dado, e isso é melhor do que a maioria dos relatos daqui. Vale só transformar em regra: mesma balança, em jejum, depois de urinar, com a mesma roupa ou sem roupa, no mesmo dia da semana. Balança de ponteiro tem erro grande e varia com o ponto do piso onde está apoiada. E o número que interessa é a média de sete dias, não o do dia.

Três notas rápidas.

A primeira é a vesícula retirada em 2018, que apareceu no primeiro post e não foi retomada. Na maioria das pessoas não muda nada. Em parte delas, refeições com muita gordura de uma vez passam a cair mal. Se isso acontecer, a correção é distribuir a gordura ao longo do dia, e não cortá la.

A segunda é o cisto de ovário de 2017. Foi perguntado no tópico há quanto tempo ela não fazia acompanhamento, e a pergunta ficou meio no ar. É acompanhamento de rotina com a ginecologista, e ela já estava indo.

A terceira é sobre o apetite. Ela relatou semanas pulando refeições, com dificuldade no café da manhã, num projeto cujo objetivo era ganhar. Vale dizer o óbvio que às vezes some: quem quer ganhar e não consegue comer precisa de comida mais densa, e não de mais volume. Azeite, pasta de amendoim, castanhas, leite integral e ovo inteiro entregam muita caloria em pouco espaço. Tentar ganhar peso com prato grande costuma falhar exatamente onde ela estava falhando.

E vale registrar o treino que o @Batata... montou para ela, periodizado com semanas de 12 a 15 repetições alternando com semanas de 8 a 10, com progressão de carga explícita e intervalos definidos. É um bom trabalho, e ela relatou logo depois que estava sentindo tudo. Programa simples, com progressão escrita, é o que funciona.

Fecho com o que eu acho.

Ela chegou aqui achando que tinha um problema de disciplina ou de biotipo, e o que ela tinha era um exame alterado que ninguém tinha olhado ainda. Isso é o oposto do que costuma acontecer: normalmente a pessoa culpa a tireoide sem exame nenhum, e aqui havia exame e faltava a leitura.

O melhor que esse tópico fez por ela não foi a dieta nem o treino, que também foram bons. Foi alguém ter olhado aqueles papéis e mandado ela voltar ao médico.

E o que eu acrescentaria é só uma frase: enquanto a tireoide não estiver resolvida, ela não está com o metabolismo a favor. Ela está pagando por ele.

Para quem quiser montar a dieta com os números na mão, o site tem um gerador de dieta em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/dieta/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento.

As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.

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