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Esse tópico começa com uma pergunta e recebe, logo nas primeiras respostas, duas das melhores frases que eu li neste fórum.

A @Let36 abriu pedindo ajuda para montar um ciclo de GH, com o objetivo declarado de trincar o abdômen.

O @Foston respondeu que GH é superestimado. E a @Joaninha escreveu, direto: isso aqui é dieta. E completou contando que ela mesma já tinha acreditado que precisaria de GH para ter pele fina e abdome definido, e que chegou lá com cardio, treino, dieta e um pouco de testosterona.

As duas respostas estão certas. Vou desenvolver o porquê, porque o assunto merece números.

O GH tem, sim, efeito lipolítico, e ele é real. O problema é a magnitude e o preço.

Nos estudos com adultos saudáveis, o efeito sobre composição corporal existe mas é modesto: alguma redução de gordura e algum aumento de massa magra, sendo que boa parte desse aumento é água, e não tecido contrátil. E os mesmos estudos não encontram ganho relevante de força nem de desempenho. Ou seja, o GH engorda a linha de massa magra na balança mais do que engorda o músculo.

E o tempo é longo. Não é um efeito de semanas, é de meses.

Já os efeitos indesejados aparecem cedo e são dose dependentes: retenção hídrica, dor articular, formigamento nas mãos e síndrome do túnel do carpo, que é bastante frequente. Em uso prolongado e em dose alta, existe ainda o crescimento de extremidades e de partes moles.

Mas o efeito que mais contradiz o objetivo dela é outro, e quase nunca é mencionado: o GH reduz a sensibilidade à insulina e eleva a glicemia. Ele é diabetogênico.

Ou seja, ela queria usar GH para revelar o abdome, e o GH torna o metabolismo dela menos favorável a exatamente isso. É um dos poucos casos em que a droga trabalha contra o próprio objetivo pelo qual foi escolhida.

Uma nota técnica que ficou faltando na discussão sobre marcas e unidades.

Discutiu se quantas unidades seriam necessárias dependendo do produto. O problema é que essa pergunta não tem resposta pelo rótulo. Dosar GH no sangue não serve, porque ele é liberado em pulsos e o valor de um momento não diz nada. O marcador que responde é o IGF-1, que integra a produção ao longo do tempo e é o que se acompanha na prática clínica.

Ou seja, quem usa GH sem dosar IGF-1 não sabe se está usando pouco, muito ou nada. E, no caso de produto sem garantia de origem, essa é a única forma de distinguir um produto sem efeito de uma dose insuficiente.

Agora o ponto que eu considero mais importante do tópico, e que passou como comentário.

Ela escreveu, sobre a testosterona: eu não parei, não vivo sem, melhora tudo, desde disposição até sono.

Eu levo essa frase a sério, e não como exagero. Quando alguém diz que não vive sem, está descrevendo algo real: a diferença que ela sente é verdadeira e ela tem o direito de considerá la.

Mas vale colocar os dois lados na mesa, porque a decisão é de longo prazo.

Primeiro, o que a evidência sustenta. O consenso global de 2019 sobre testosterona em mulheres é claro: a única indicação com respaldo é o desejo sexual hipoativo em mulheres na pós menopausa, com dose que produza níveis dentro da faixa feminina normal. Ela tem 38 anos, ou seja, está na pré menopausa, e fora dessa indicação não existem dados de segurança de longo prazo, simplesmente porque os estudos não foram feitos.

Segundo, e é o que muda a conta: os efeitos de virilização dependem de exposição acumulada. Acne, oleosidade, retenção e alteração de fluxo regridem quando se para. O engrossamento da voz e o aumento do clitóris, não. As alterações vocais vêm de mudança estrutural na prega vocal, e a literatura descreve casos permanentes inclusive após uso curto.

Uso contínuo, por definição, não termina. Ou seja, é a estrutura que mais acumula exposição justamente na categoria de efeito que não volta atrás.

Não estou dizendo a ela para parar. Estou dizendo que, se ela vai seguir, duas coisas deveriam entrar na rotina, e as duas custam quase nada. A primeira é dosar testosterona total periodicamente e manter dentro da faixa feminina, porque a dose de gel absorve de forma muito variável entre pessoas e é comum acabar em faixa masculina sem perceber. A segunda é gravar trinta segundos de voz no celular, sempre no mesmo horário, uma vez por semana. A mudança é gradual e o ouvido se acostuma. A gravação não se acostuma.

Agora a parte que deu certo, e ela responde a pergunta original melhor do que qualquer ciclo.

Ela recebeu a orientação de ajustar a dieta por trinta dias antes de discutir qualquer coisa. Aceitou. E quinze dias depois voltou dizendo que a força tinha aumentado, a resistência bastante, e que as fotos mostravam glúteo mais alto e cintura mais definida, com o peso praticamente igual: 55,3 para 55,6 kg.

Peso igual e forma diferente é exatamente o que ela queria, e ela conseguiu isso em duas semanas, sem GH e sem nada novo.

E vale uma observação honesta sobre a meta, porque ela evita frustração.

Abdome visivelmente definido em mulher exige percentual de gordura bastante baixo, e a região abaixo do umbigo é, por ordem genética, quase sempre a última a sair. Ela tem 38 anos, 1,58 m, 55 kg e relatou entre 18 e 20 por cento de gordura, o que é uma faixa saudável e bonita.

Chegar ao abdome trincado significaria descer bem abaixo disso, e isso costuma cobrar em menstruação, humor, sono e desempenho, além de ser difícil de manter por muito tempo. Isso não quer dizer que não dê para melhorar bastante, porque dá, e ela já estava melhorando. Quer dizer que a distância entre onde ela está e a foto que ela tem na cabeça é maior do que qualquer droga fecha, e que o custo dessa distância não é medido em dinheiro.

Fecho com uma nota sobre a segunda pergunta dela, que passou meio despercebida.

Ela disse que não queria combinar GH com oxandrolona para não ficar forte demais, e o Foston devolveu a pergunta: tem medo de ficar forte ou acha que GH com oxandrolona é algo forte?

A pergunta era boa. E a resposta é que a oxandrolona seria, das duas, a que mais entregaria o que ela busca, com meia vida de cerca de 9 horas, o que significa poder parar no dia em que aparecer qualquer sinal. Já o GH entrega menos, demora mais e custa muito mais.

Ou seja, entre as duas opções que ela estava considerando, ela tinha escolhido a menos eficiente para o objetivo dela. E a resposta que ela recebeu, de ajustar a dieta primeiro, era melhor que as duas.

Para quem quiser entender quais exames costumam entrar antes, durante e depois, e o que cada um responde, o site tem um orientador de protocolo hormonal simulado em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ . A saída é simulada e serve como rascunho de estudo, não como prescrição.

As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.

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